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10 janeiro 2005

Recado aos amigos

Murilo Galvão

Leio no blog do amigo carioca que os tempos andam duros, tempos do PT de Lula, de praias quietas, calor intenso. Muito desconforto no ar e parece que na vida das pessoas. Tempo de ar condicionado ligado, pouco salário e de muito dinheiro para pagar as contas.

Escreve ele : “Felizes os meus amigos de NY”.

Pois é, meus amigos. Realmente NY é uma cidade grandiosa, fantástica, ótima para se passar uns tempos, nunca para se morar. Felizes os que estão por aqui. Só é pena que não tenham conseguido criar na cidade as belezas naturais, os cartões postais do Rio de Janeiro, para vender em cada esquina aos deslumbrados, incontáveis e incessantes turistas que não param de chegar, não importa a hora do dia ou o dia da semana.

Cidade rica, comércio fantástico, ficamos babando só de olhar. Mas a verdade é que tudo é muito artificial. Vocês, como eu, iriam sentir falta de uma feirinha livre, daquelas que azucrinam a vida dos moradores locais mas que nos enche a vista com tantas cores, ao vivo, folclore colonial que êles não tem por aqui.

As mulheres, linda, loiras, fantásticas como a cidade, parecem todas vindas de Hollywood. Mas a verdade é que faltam bundas e a cor morena da praia no ar, ou melhor, nas calçadas.

As vitrines, a moda, e novamente as mulheres, quanto charme ! Incomparáveis. Não temos nada igual nos nossos ricos shoppings. Sorte que a Giselle é nossa.

Anda calor por aí ? Por aqui, um frio danado. Entre os dois extremos, concordo, fico com o segundo. Agora, e o azul do céu que, por aqui, não anda tão disponível como aí ? Como é bom poder olhar para cima sem ver sempre o cinza, não ?

A conta da luz está alta ? Venham pagar uma long-neck a seis, oito, doze reais. Um hamburger a vinte e cinco reais. Ficou doente ? - sistema de saúde de primeiro mundo. Com seguro ou sem seguro, preparem mil e cem dólares para pagar por uma ambulância qualquer para levar o corpo moribundo a um hospital, trezentos metros adiante.

Pois é. E eu que andava achando vocês felizes por aí, já com vontade de voltar.

O parque, aquele de minhas caminhadas e fotos, lembram-se ? Lindo com suas árvores desfolhadas e esquilos a correr pela grama morta. Pena não ser exuberante como alguns dos nossos, mais humildes, o Parque do Flamengo, por exemplo. Podiam, pelo menos, trazer algumas cotias do Campo de Santana para brincar com os esquilinhos, povoar mais a fauna local .... Engraçado ver as crianças no zoo curtindo carneiros.

Fecharam as praças cariocas com grades ? Sorte a nossa pois aqui fecharam as fronteiras e os aeroportos.

É, por aqui não há favelas, que sorte a deles. A nossa é de não ter alguns milhões de imigrantes (pobres) ilegais a azucrinar o governo (rico). Mas preparem-se. Nossa hora está chegando; os bolivianos e paraguaios estão descobrindo o caminho da praia (já chegaram a Sampa, não ?). Pode ser que sigam para Santos, primeiro.

O PT azucrina por aí ? Antes era o PSDB ? O próximo vai ser o PMDB, o PFL, o PL, o PLB, C, do B ? Por aqui tudo é mais fácil e prático mesmo : são só dois partidos e as surpresas são, então, menores. Mas acontece que êles têm um Bush que vale mais que vários PT. Sorte a nossa, desapercebida. Felizes os de NY, pois o homem mora em Washington, é verdade (ou consolo)

Está certo, concordo, violência por aqui não se vê. Vez por outra uma pequena nota em canto de página de jornal : alguém pegou sua metralhadora de caça e saiu atirando nas criancinhas da escola vizinha. Nada é como aí, com tiroteios diários, balas perdidas, essas coisas. Mais espertos, deixam que as balas se percam lá pelo Iraque, que a cabeça não é a deles, sem capacetes cibernéticos que desviam balas mas não impedem as bombas mais abaixo, nos pés. Mas, vale trocar as violências ? Não sei, ou melhor, sei mas não digo para não mudar de assunto.

Sem dúvida nenhuma NY é fantástica mas lhe falta uma Itaipava ou Búzios por perto para a gente dar uma escapada no final de semana. Tudo aqui é grandioso, como em Itú, mas estamos falando do Rio e não de São Paulo. A verdade é que me bate uma certa nostalgia e, volta e meia, estou pensando nas ruas pacatas e descalças de Maringá, da cachoeiras locais e, pasmem, até mesmo da presunção barata do povão rico de Itaipava. Entendo que, com tudo isto muito fácil por aí, não há como não pensar em NY.

Os carros daqui, nossa paixão (mais uma), são um desbunde, concordo. Não fosse fazer o papel de idiota, ficaria numa esquina fotografando cada um que passasse : Bentley, RR, Range Rover, Ferraris, Lincoln, Maseratti, Acura, Lexus e muitos outros de pedigree incontestável. SUV às dezenas. Não olharia para as poucas Mitsubishi ou Cherokee, carros de pobres locais. Mas o problema é que não vejo (e tenho certeza que vocês também sentiriam falta) o meu Troller, as Toyotas, JPX, Defender e outros xodós dos amigos daí. Uma pena.

Restaurantes, para todos os gostos, quatro em cada cruzamento. Nos mais baratos, bom separar mais de duzentos reais por uma refeição simples com duas taças de vinho. Pena ainda não terem descoberto o tutú com feijão, a rabada, uma boa muqueca, o camarão com xuxú ou a galinha ao molho pardo, a trinta reais para dois, ou mais barato nos a quilo que, sabiamente, já instalaram por aqui.

Enfim, meus amigos, felizes somos todos nós, cada um no seu canto, mais ou menos definitivo. O problema que nos aflige – pelo menos para alguns de nós – é a idade que já chegou e que nos faz voltar à juventude, cada vez mais inquietos, buscando mudanças pois o tempo vai ficando curto.

Pior ainda é quando somos marujos ou jipeiros, amantes de aventuras e viagens, como o meu amigo carioca do blog.

Um comentário:

Anônimo disse...

Isto mesmo meu amigo, tempos duros e caros promovidos pelo sr. da Silva. Verás quando aqui chegares.
Não é uma ameaça apenas um Bienvenu.
"2005 - O Ano dos micro créditos e das cooperativas"
(da Silva)