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07 janeiro 2005

E Deus ... Criou a Mulher (Final)

Murilo Galvão

Após expectativas e frustrações de muitos anos (vide artigo de 23 de dezembro), lá estávamos – eu e meu convidado, doador do DVD – frente a frente com a telinha de plasma, maravilha moderna expondo (em cores) peça de cinema já tão antiga.

A primeira cena do filme, diria, é aperitivo saboroso para uma suculenta refeição que não acontece. Brigitte, BB ou Juliette, todas e somente uma ninfeta, deitada sobre a grama, nua em pêlo, perfil maravilhoso e ainda moderno. Para quem buscava uma Brigitte explícita, momento sublime e único.

Não há, então, como deixar de ajeitar-se na poltrona à espera de doses maiores. Início promissor, pensei. Sinto ao meu lado o olhar curioso de meu convidado e um certo sorriso maroto ao me observar alí, imaginando-me ainda criança, frente a frente com o seu mito. Finjo não perceber e continuo assistindo as cenas que se desenrolam lentamente na tela.

Na realidade, o filme é morno e a história banal para os dias de hoje. Todo o erotismo se concentra na beleza, cabelos, lábios e rosto de BB. Salvo em uma ou duas oportunidades, mal se contempla as pernas de Juliette, sempre cobertas por vestidos que só deixam à vista seus tornozelos. Os seios, generosos, só pelo perfil criado por blusas colantes.

Erotismo ou pornografia explícitos, nem pensar. Imagino com que tédio uma platéia de adolescentes assistiria o filme nos dias de hoje. Nossas novelas das seis se encarregam de apresentar coisas (do gênero) muito mais ousadas que a estória de uma orfã, adolescente, em busca de uma vida agitada e que transpira sexualidade.

E, pelo sucesso alcançado à época, nos faz perceber como o mundo mudou, com seus novos usos, costumes e uma permissividades agora sem limites. O filme, tão censurado (oficial e socialmente) na ocasião do lançamento, deve tudo à Brigitte ou a Juliette que se confundiram na tela e na vida real. Barreiras foram derrubadas pelas duas e, Roger Vadim, doublé de diretor e marido, grande voyeur, soube muito bem tirar partido daquele “fenômeno” ágil e de pernas esguias que tinha (literalmente) nas mãos.

Babação de fanzoca à parte, o filme prossegue com Juliette alegre, confusa, imediatista, buscando o prazer de seu amor. Enfeitiça a cabeça dos homens da vila onde mora. Esnoba um ricaço paciente, apaixona-se por um Antoine e acaba casando-se com seu irmão, fugindo do destino que lhe reservaria, como solteira, a vida interna de um orfanato qualquer.

Maridão (para rimar com irmão), por tão apaixonado, perdoa tudo e até mesmo sua relação com Antoine que – para bem da moral restante – resiste até onde pode. Uma cena na praia entre os dois (quase náufragos) mostra uma BB escultural como em poucos momentos do filme. Tudo, porém, muito rápido, lúdico e sem nenhum zoom para ajudar. Mas a dose é demais e Antoine cai por terra, ou melhor, na areia e imaginamos o que ocorre alí naquele pedaço deserto.

E o filme vai caminhando até o final sem nenhum happy-end, suspense ou surpresa.

Mas, alguém já deve estar perguntando, e a cena do banho tão esperada? Aquela que ficou na memória por tantos anos ?

Também a aguardei com impaciência mas, aos poucos – no desenrolar do filme – fui descobrindo que além da Mulher, Deus também criou a imaginação juvenil.

Para não distorcer as imagens tão registradas e que procurei descrever aqui há duas semanas, fui buscar no texto original :

“... A cena do banho ficou então marcada em mim para sempre. Brigite Bardot, a musa daqueles anos, lábios carnudos, sexy, quase ninfeta como Lúcia, Tânia, Vera e outras entre nós, saindo do banho naquele roupão branco e maravilhoso.

Naquele momento, dava para sentir o perfume que ela usava.

E a câmera focalizando em close seus lábios em sorriso malicioso, afastando o zoom ao mesmo tempo em que ela afastava as abas do roupão que escondia seu corpo ainda molhado. Primeiro os seios, o ventre e, por fim, o sexo, puro, ao vivo e alí para ser comido com os olhos ou pela nossa imaginação naquele momento.Quanto tempo durou a cena na tela nunca pude saber ao certo. Para mim, durou a eternidade pois persiste até hoje.”

Persistia, pois agora descobri que a cena do banho nunca existiu. Na verdade, Juliette sai da cama e, dirigindo-se ao marido, abre o lençol que a cobria para o abraço irresistível. Toda a cena dura uns dez segundos, se muito. A nós, pobres na plateia ou expectadores frustrados, só nos coube a visão lateral do lençol e do peito descoberto do marido !

Desta vez não senti seu perfume … Os seios, o ventre, o sexo não ví e, portanto, não os comí como imaginava faze-lo nestes tantos anos.

Posso dizer, entretanto, que ao final não ficou nenhuma expectativa nem frustração. O DVD caiu do céu e para o céu se esvairam minhas memórias de adolescente. Na Terra ficou minha opinião de que Brigitte Bardot foi a mulher dos anos 60, a musa de uma geração masculina e talvez de outras adolescentes daquela época.

Se não conhecí seus seios, ventre ou sexo, pude admirar seus olhos, lábios, cabelos e algumas curvas como um adolescente qualquer, mesmo agora, quase aos sessenta anos de idade.

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