Murilo Galvão
- Mais alguma coisa ?, pergunta o garçon.
- Dois chopps, por favor.
O silêncio é longo, perdido na algazarra do bar em noite de sexta-feira.
- Acho que já lhe contei .... Foi amor à primeira vista ... No início, lá na faculdade, andava perseguindo ela, de longe, com minha câmera de amador. Não perdia um sorriso, uma passagem, um gesto mais alegre e, clique, mais uma foto para a coleção que ia crescendo. Até que um dia nos apresentaram. As fotos se acabaram, eu me tornei a própria câmera, captando com meus olhos tudo dela. Fomos ao Parque Laje, à praia muitas vezes juntos, ao cinema, até que o namoro dela começou comigo, pois eu já estava apaixonado e a namorava há muito ....
- Dois chopps, mais alguma coisa ?, volta dizendo o mesmo garçon.
- Obrigado.
- E ela, soube das fotos que você tirava ?
- Nunca tive coragem ....
- Bobagem ... E nunca mais tirou nenhuma ?
- Só mais uma vez, quase um ano após o início do namoro ... Já estávamos morando juntos. Perguntei-lhe se não queria posar para mim.
- E ela ... ?
- Ela disse que sim, mas nada de mulher pelada, sexo, coisas deste tipo. Tiramos as fotos lá em casa mesmo. Tudo em close, sabe como é ?
- Hum, hum ...
- Pois é, primeiro foram os olhos. Lindos, negros .... Brilhavam para a câmara. Pareciam excitados com a brincadeira. Pude vê-la, pela primeira vez, totalmente por dentro ... Era ainda mais linda ... Depois os lábios, ao natural, sem batom nem nada. Sorriam de forma marota, uma alegria que eu já conhecia há muito tempo. Brilhavam de úmidos e quase tocavam as lentes em beijo sensual. Tiramos mais alguns de seu rosto em close, quase dentro da máquina. Acho que tremiam as mãos pois tive que repetir estas fotos umas três vezes. Depois, coloquei suas mãos por entre os cabelos e registrei aqueles dedos que me pareciam sublimes, frágeis, bem moldados e firmes. Por fim, tomei coragem e lhe pedi para fazer algo mais sexy, fora de nosso combinado.
- E ela, topou ? Tirou a roupa ?
- Não ! Só pedí para fotografar suas pernas, lindas, torneadas e compridas ... As mesmas que eu perseguia com minhas lentes na faculade ...
- E ela, deixou ?
- Disse que sim. Trocou a saia por uma vermelha, a que havia usado em um baile de formatura, aberta no lado. De perfil, registrei aquelas que eram as minhas pernas ...
- Garçon, mais dois chopps ....
- Eram .... ? Porque ?
Mais uma eternidade de silêncio entre os dois. Ao fundo, gritos de alegria, como se todos estivessem comemorando alguma coisa naquele bar.
- Pois é ... Não cheguei nem a revelar aquelas fotos, as últimas da minha coleção.
- ... ?
- Umas semanas depois, chego em casa e bum ! Dinamite puro... O mundo se acabando para mim. Estou na sala e ela chega do quarto com uma pequena maleta na mão ... Parece que foi hoje. Tá tudo registrado em close aqui na minha memória. Seu rosto parecia pálido e triste, como o de uma gueisha, com a beleza tomada pela máscara. Os lábios, secos, não mostravam o sorriso que me acostumara tão mal. Tremiam um pouco quando se moveram para dizer que estava indo embora, sem mais nem menos, curto e grosso, sem nem explicar o porquê.
- ....
- Fiquei mudo, calado, paralisado .... Os olhos, pretos e enormes, daquela vez me pareciam sem brilho e tristes. Já não podia vê-la por dentro, alí, pela primeira vez, uma outra mulher ...
- Putz .....
- E os meus closes sofridos continuaram. Ví suas mãos trêmulas, seus dedos frágeis, girarem a maçaneta da porta. Os lábios, quase sem movimento, dizendo um tchau cortante .... Dei um passo adiante, forçando alguma reação, mas só foi o bastante para registrar em close, para sempre, suas pernas, ainda torneadas e esguias, caminhando com pressa para o elevador.
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