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29 janeiro 2006

Homenagem (ii)

O vôo da andorinha

O som do impacto foi curto e seco. Em questões de segundos os dois gatos já estavam sobre o filhote de andorinha que havia entrado na sala e se lançado contra o vidro na esperança do vôo mais longo. Não sei como, cheguei junto com os gatos, a tempo de evitar o pior.

Agora, com o corpo minúsculo em minhas mãos, massageava seu peito magro na esperança de ativar o coração que, imaginava, estaria parado. Somente na extremidade de uma de suas garras se percebia vida pelo movimento mínimo.

A associação com o que estava por vir nos dias seguintes foi imediata. Emocionado, aumentei o ritmo da massagem porém nada dava sinal de vida. Cinco, dez minutos se passaram o aquela andorinha ali, inconsciente, em minhas mãos. Achava que sua vida dependia daquilo que eu continuava a fazer. Acho que os meus olhos embotaram-se ao olhar os seus, fechados.

Sua garra agora já não se movia mais. Pensei em desistir.

De repente, senti não uma das garras, mais todas, cravarem-se em meu dedo. Percebi que a vida voltara.

Girei o seu pequeno corpo para a posição normal e esperei. Em não mais que dez segundos, aquele filhote de andorinha retomou o seu longo vôo interrompido por uma vidraça desconhecida.

E eu alí, prostrado, fiquei imaginando o significado de tudo aquilo.

19 janeiro 2006

Olhar e não ver

(Estocolmo, Suécia, 1975)
Uma homenagem a todos nós, brasileiros, tão acostumados a olhar e não ver.

15 janeiro 2006

12 janeiro 2006

Prismas

Descendo a serra em dia nublado, vou acompanhando os comentários e exclamações dos visitantes, turistas de primeira viagem ao Brasil. O verde das encostas, do capim sobre a rocha negra, dos manacás e ipês já sem flores, o contraste entre tantos verdes.

Tudo parece ser assim, monocromático, para êles, assombrados por matizes inesperados. Esquecem até de olhar para o barro dos tijolos descobertos e para a água suja que escorre calmamente das construções pobres para o rio que agora é negro.

E eu, no meu canto, com meu prisma particular, imagino que ainda é preciso haver esperança; que o vermelho volte a nos ser verde.