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31 dezembro 2005

2006 : O Ano da Vassoura

Os anos vão se passando e a cada final de dezembro nos sentimos envolvidos em rituais de esperanças. Precisamos acreditar que 2006 será o Ano da Vassoura, o ano de nossa vassoura. De uma forma ou de outra, que todas as sujeiras que nos cercam sejam eliminadas, não para debaixo de um tapete qualquer, mas para um aterro sanitário que fique no passado, para sempre. Precisamos transformar o desespero de hoje nesta e em muitas outras esperanças.

Este artigo foi escrito há exatamente doze meses. Trata de uma personagem muito especial, sofredora e, ao mesmo tempo, sonhadora; assim como um pouco de cada um de nós. Ao longo da narrativa podemos identificar momentos e locais que nos são familiares. Piaçava, nossa heroína, luta por uma esperança que, ao final, descobre ser ....


Piaçava e o Reveillon
(*) - Para os leitores de primeira visita : Piaçava da Silva é o principal personagem e musa dos textos deste blog. Sua origem e estórias podem ser lidos em outros artigos anteriores (2004).

- Acho que desta vez o castigo virou tortura. Já estou aqui há mais de uma semana, amarrada a mais umas três Piaçavas, deitadas, no escuro e sobre uma prateleira fria de algum depósito. Não aparece ninguém para nos ajudar. Já tentamos conversar algumas vezes mas só ouvimos lamúrias, umas das outras. Não dá para falar de outras coisas, mesmo. Por isto, volta sempre este silêncio, de tantas horas ou dias, sei lá ... Para não dizer que não ouvimos nada, de bem longe escuto muitos tiros mas acho mesmo que são fogos estourando no ar. Devem estar comemorando alguma coisa, como nos meus tempos de criança, dias do Divino, São João, Santo Antonio, Ano Novo ou casamentos alegres, lá pelas bandas de Cairú ou Valença.

Esta noite, não por causa dos estouros, dormi novamente muito mal. Entre tantos sobressaltos que não sei bem o porquê - talvez pela posição que não me deixa mexer o corpo, acabei sonhando, um sonho muito esquisito.

Nunca soube contar meus sonhos, este então .... Acho que, e não sei por que, procurava chegar à uma porta que era muito larga, branca, coberta por muitas flores. Alguma coisa me dizia que se chegasse lá, do outro lado, estaria livre, encontraria esperanças, a de uma vida melhor, quem sabe voltar para minha terra, deixar a escravidão para trás ?

Acontece que a porta estava longe. Sumia e desapareceia a todo momento de minha vista. Entre ela e eu havia um corredor por onde eu já havia iniciado uma carreira louca em direção àquela porta, de todas as minhas esperanças.

O corredor era largo mas, às vêzes, ficava muito estreito. Não era sempre plano : subia e descia como nas ladeiras da Bahia. Por uns momentos ficava iluminado para logo escurecer. Fazia muito calor alí no início, mas depois observei que esfriou. Para mim, era como uma pista de obstáculos. Pior de tudo é que, não sendo reto, quase sempre escondia a minha porta e eu perdia a noção do tempo e da distância que ainda teria pela frente. Resolvi ir mais devagar. Precisava alcançar e abrir aquela porta. Encontrar minhas esperanças.

Como disse, no início era quente e o quente se misturava com muita chuva, que trazia sujeiras, que trazia um enorme trabalho para mim. Ouvi alguns gritos, choros mas não tive tempo para saber de onde vinham e o porquê. Fiz meu trabalho e fui em frente.

A música era muito alta, as luzes muito fortes, a alegria parecia ser enorme. Por uns quatro dias tive que ficar em pé, num canto, manipulada por alguns homens de amarelo-abóbora e trabalhei muito, muito mesmo, pois tudo alí – naquele pedaço do corredor – era exagerado. Inclusive a sujeira que aquele mundo de pessoas deixava para trás. Por sorte, por uns minutos apenas, um daqueles homens de amarelo me tirou para dançar. Em suas mãos, como se fosse um estandarte, bailei alí naquele corredor alegre e muito largo. Descansei e tive um momento de felicidade.

E vieram outros pedaços. Passei por muitos trechos que mais pareciam arenas de lutas mas acho que eram simples jogos de futebol. Tudo era muito bonito, nada parecido com as peladas que, do alto, assistia, quando criança, a molecada jogar. E naquele trecho de meu sonho e do corredor tive que empurrar muitas garrafas e latas, papeis sujos misturados com muito mijo.

Como tentei explicar, havia de tudo naquele corredor-labirinto onde havia me metido. Por sorte andei também sobre tapetes macios. Naquelas horas, aproveitei para tomar um pouco de ar. De vez em quando via, de relance, a porta salvadora, agora um pouco mais perto, imaginava.

Andei também, encostada, sem fazer nada, em algumas salas luxuosas, o que me exasperava. Aquele não era o meu mundo e eu poderia fracassar. Pelos cantos, podia ouvir conversas que não tenho coragem de contar. Nem em sonho. Engraçado, sempre me pareceram acontecer naquelas salas, acho que escritórios. O ar condicionado e os homens, frios, me davam esta impressão.

Os momentos de escuridão naquele corredor, todos se pareceram com os já vividos em becos escuros por onde já havia passado. Podia ouvir palavras sem nexo e roncos de bêbados, gemidos de alguns que deviam estar doentes. Carregada pelos mais sóbrios, fiz a minha parte ajudando todos eles a catar seus pedaços de papeis e bolachas de metal, latas amassadas.

Acho que o pior momento da travessia foi quando a pista ficou inclinada. Subia cada vez mais, descia e tornava a subir, sem cessar, todos os dias. Pensei em desistir pois não aguentaria muito tempo naquele exercício. Por sorte, tive que parar algumas vezes. Sempre que ouvia tiros e, desta vez, acho que eram tiros mesmo. Voltava ao trabalho empurrando, morro abaixo, tudo que encontrava. E mais subia, mais trabalhava, mais plásticos, pedaços de pau, móveis, outras Piaçavas – já velhas, quase mortas – tudo tinha que levar morro abaixo em busca das minhas esperanças.

O piso que era negro como asfalto, de repente, se tornou da cor marrom, um marrom rachado por estrias da terra seca. Sentí logo o cheiro e as lembranças vieram. Foi um momento de recordações. O trabalho de vencer aquele obstáculo era fácil e agradável. O terreiro era pequeno, as folhas da árvores que caiam eram poucas, a titica das galinhas e dos patos que não paravam de sujar tudo logo secavam e eu ia em frente. Havia até uma mulher – engraçado – que de vez em quando vinha me pegar para correr atrás de umas crianças que riam, gritavam - provocando a velha - e desapareciam por detrás do mato próximo. Isto andou me atrasando um pouco mas me divertí naquele pedaço.


E assim fui indo, aos trancos e barrancos em minha alucinada busca. Andei até embarcada, navio cheirando a peixe. De tão enjoada fiquei, só me lembro da volta, pisando sobre vísceras de peixes, cascas de camarões, disputando espaço com biguás. Por pouco não caio n’água ...

E, por falar em aves, aqueles urubús. Foi um pesadelo dentro do sonho, quase pesadelo que ia vivendo. Pilhas e mais pilhas fechando o meu caminho salvador. E eu, suando, tentando limpar toda aquela montanha de imundícies. Por sorte algumas crianças – coitadas e inocentes – e mais uns maltrapilhos que estavam por perto me ajudaram a deixar tudo aquilo para trás e ir em frente. Alí, melhor trabalhar mesmo com as mãos, aprendí.

E assim fui, o tempo passando, a bendita porta da minha esperança cada vez mais perto. Agora já podia vê-la, quase tocá-la. Entre nós, quase nada. Apenas uma bifurcação. Escolhi um dos caminhos e fui em frente. Naquele trecho, podia distinguir uma árvore verde, muito iluminada, coberta pela metade por caixas coloridas. Havia muitas crianças excitadas e adultos sorridentes. Vencer aquele pedaço foi muito fácil : apenas muitos papeis sedosos e caixas brilhantes, rasgados e espalhados pelo chão, ao final da passagem. De tão tranquila estava, tive tempo de olhar para a parede de vidro do corredor, a que me separava da trilha que havia evitado. Do outro lado, mais algumas crianças e adultos. Quase a mesma cena, mas não haviam árvores verdes iluminadas, nem sorrisos, nem caixas para eu catar. Apesar disto, não cheguei a me arrepender da escolha. Fui em frente.

Agora estava diante da porta. O coração batia a mil. O medo de cair alí e perder tudo me assustou. Resolvi parar para descansar e refletir.

Olhei para trás e ví por onde havia passado, o que havia feito. Ganhei coragem com tanto orgulho, não havia mais como desistir, a esperança não poderia me abandonar, jamais. Abrí a porta larga, branca, coberta de flores e me lancei, quase desesperada.

Ao abrir os olhos, estava sobre a areia cinza e molhada de uma praia. A faixa de areia branca e seca parecia ser muito grande, quase um deserto para mim, pequenina, deitada alí, ainda indo e vindo com aquelas ondas fracas que procuravam me dar forças, fazendo o meu trabalho.

Longe, podia ver muitos edifícios, altos, coloridos. Tinha a impressão que haviam pessoas além daquelas janelas, algumas dançavam. Ouvia uma música, ou melhor, eram muitas, se misturando confusamente em meus ouvidos.

Mais perto, mas ainda distante, outras pessoas, em grupo, todas cobertas de branco sobre o fundo negro da noite, formando um estranho contraste para minha visão.

Bem próximo a mim, um corpo de homem, deitado, caído, levemente sendo lavado pelas ondas que chegavam até êle. Não estava morto, com certeza, pois cantava algumas palavras sem sentido. Devia estar bêbado.

E eu alí, deitada, em êxtase ainda, pude observar então o meu mundo, o da esperança que vinha de tão longe buscar. Flores e mais flores, latas, jornais, algumas algas verdes, quase negras, muitas garrafas, tudo indo e vindo lentamente - até algumas camisinhas e charutos - ao sabor da maré vazante. Estavam todos esperando por mim, pensei.

E me dei conta que a esperança que viera buscar era Eu, nada mais.

29 dezembro 2005

Variações
















Entre pizzas e valérios, recordo-me de já haver lido :
" Corrompo, logo existo. " (Millor Fernandes)

27 dezembro 2005

Cristais

E então eu pergunto :

Se, quem com ferro fere, com ferro será ferido;
então, quem dá aos pobres, vai acabar na miséria ?

A verdade desvendada (Depoimento)

- Tudo que venho afirmando é a pura verdade ! Porque iria mentir ? Afinal, já são três viagens ao planalto e não seria agora que estragaria minha imagem que todos no Brasil já conhecem ... O que me deixa mais chateado é que tudo parece uma montagem de meus inimigos e ainda há os que acreditam em tantas mentiras ....

- Habeas-corpus ? Não preciso disto, mas meu advogado achou melhor ... Sabem como são estes advogados, não ? De repente, pode até ajudar, mas, repito, sou homem de princípios e verdades ! Estou aqui para colaborar.

- Vou repetir para os senhores, mais uma vez : nada que faço ou fiz é pessoal ....; tudo de que possa haver participado foi feito para o grupo que me acompanhava e sobre o qual tinha alguma responsabilidade, como líder do comboio. Estávamos a mais de 80 km/h. Era quase noite e a estrada, mal conservada, gerava uma poeira muito forte. Como a poeira chegava pela frente do meu carro, não sei .... Na verdade, alguém ligou todas as luzes para que eu pudesse encontrar o caminho ... Sobre dutos, nunca ouvi falar a respeito .... Nosso carro flutuava e não havia como esbarrar em algum ....


- Não ! Nunca houve qualquer farol queimado ou desligado. Repudio qualquer insinuação de que tenha desviado um centímetro de meu caminho para comprar um farol novo ! Minha integridade moral não permitiria tal desvio ! Mesmo que houvesse qualquer insinuação, por mínima que fosse, para que eu vendesse, alterando minha decisão de prosseguir até o fim, jamais aceitaria isto ... Nunca !

- Aliás, nunca soube nem que haviam faróis naqueles carros ... Também, se haviam, isto era prática comum ... Todos os carros usavam do artifício para iluminar seus caminhos ao planalto .... Sobre o que disse à Polícia Federal, à Rodoviária, o único careca que conheci durante as minhas três viagens ao planalto, foi o pneu do carro que vinha atrás do meu, só isto.
- Se alguém pegou o dinheiro para pagar as dívidas com o eletricista, desconheço. Perguntem ao tesoureiro do grupo ... Já disse que nem sabia que o carro tinha faróis ...
Sobre o banco a que o senhor se refere, acho que não era nem forrado .... Se ainda me lembro, me parece que nem me sentei nele durante a viagem ....


- Não, não sei. Alguém foi lá e mexeu no painel. Nunca toquei naquele botão ! Investiguem que, tenho certeza, chegarão aos responsáveis por isto !! E sobre as camisetas, nunca soube que houvessem comprado alguma ... Eu mesmo, naquela noite, estava de peito nu; passei até algum frio, pois havia doado a minha camisa a um movimento social de beira de estrada ...

- Já afirmei aos senhores que era quase noite ... Sobre o fundo da pensão, como posso saber algo se nem ao menos paramos para tomar um café ? .... A única coisa que, ouvi falar, veio do estrangeiro, foi o charuto que fumamos durante a viagem ...


- Sobre isto não posso esclarecer nada, pois só olhava para a frente .... Sou um homem reto. Talvez o secretário do grupo possa responder. Reafirmo que havia muita poeira e que estávamos, todo o grupo, sem exceção, a mais de 80km/h .... O nosso presidente talvez possa esclarecer alguma coisa aos senhores ...., mas com tanta lama e poeira no caminho, quem pode garantir ? ...... Perguntem a ele, quando regressar da viagem que está fazendo ...


- Se há uma coisa que não posso admitir, mesmo de um de meus pares, é qualquer suspeita sobre minhas palavras. Sou inocente, pois nunca participei ou soube de nada ...
Jamais vi um simples raio de sol durante toda aquela viagem .... Sobre o Rural, eram tantos os carros que não sei se havia alguma delas por lá, na estrada .... Aliás, este carro não é nem do meu tempo ....


- Isto só pode ser montagem de algum grupo opositor .... Os senhores sabem, temos disputas, mesmo dentro do grupo .... Como venho repetindo desde o início, estávamos juntos, há quase 100km/h, era quase noite e havia muita poeira e fumaça no caminho .... Fora isso, não sei de mais nada e sou obrigado a dizer que tudo o mais é pura mentira. Intriga da imprensa ou da oposição ! Estão querendo mudar a minha imagem .....

(Alto Paraíso de Goiás, GO, 2005)

24 dezembro 2005

Musa (iv)

(Veneza, Itália, 1975)

Da série natalina (iv) : Vigilia

Sobre o céu que os esconde, o olhar e a proteção sempre bem-vindos.

Maneco

(Diamantina, MG, 2005)
Pelas Gerais, lhe chamam Maneco. Rapaz delicado, meio gordinho, elegante em seu vestido de chita barata. Lábios carnudos, olhar penetrante. Cabeça ôca.
Por aquelas bandas, ninguém até hoje viveu sem os favores de Maneco.

23 dezembro 2005

FELIZ NATAL

Aos nossos amigos e visitantes, anônimos e invisíveis.

Teatro de marionetes

(Barra Mansa, Petrópolis, RJ, Natal de 2005)
No palco distante e mambembe, a bruxa vermelha malvada, a fada que promete mágicas e o príncipe que já foi um sapo. Na platéia, os inocentes. Todos, juntos, personagens de uma grande comédia no Grande Teatro Brasil, hoje.

Da série natalina (iii) : Iniciação

(Barra Mansa, Petrópolis, RJ, 2005)

Da série natalina (ii) : Procissão

Seguem os santos, contritos, em sua caminhada silenciosa. Nas missas, o programa de auditório diverte a galera.

21 dezembro 2005

Ao estilo "noire"

(Innsbruck, Áustria, 1974)

Um timbira em Nova York

New York, EU, 2005
O timbira dobrou a esquina e seguiu em passos largos, porém um pouco lentos para suas pernas longas e magras. Nos pés, um tênis Adidas, falsificado e poído. Um calção verde e uma camiseta da cor laranja com vistosa estampa “Visite o Maranhão” compunham todo o seu vestuário. Premido sob um dos braços, uma estranha borduna. Parecia buscar algo no alto, para onde não parava de olhar, só que desta vez não eram os guarás no topo de um buriti qualquer que chamavam sua atenção.

Continuou descendo a longa avenida. Dobrou mais umas duas esquinas; parou por alguns minutos, antes de empunhar a sua borduna, velha cortina que agora aberta, cobria a arte negra do Soho.

Futuro

New York, EU, 2004

Pode um olhar para cima encontrar o futuro ?


20 dezembro 2005

Ainda sobre bananas : o passado que nos acompanha

Feira de Santana, BA, 1983

Sobre bananas, bananadas e sobre as riquezas da vovó ainda em berço esplêndido


Tiradentes, MG, 2005
*O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Weber Figueiredo, deu uma última aula para seus ex-alunos. Diante de uma platéia de formandos, acompanhados de seus pais, o professor paraninfo da turma discursou sobre o Brasil. Leia o que disse Weber Figueiredo :

"Ilustríssimos Colegas da Mesa, Senhor Presidente, meus queridos alunos, Senhoras e Senhores.

Para mim é um privilégio ter sido escolhido paraninfo desta turma. Esta é como se fôra a última aula do curso. O último encontro, que já deixa saudades. Um momento festivo, mas também de reflexão. Se eu fosse escolhido paraninfo de uma turma de direito, talvez eu falasse a importância do advogado que defende a justiça e não apenas o réu. Se eu fosse escolhido paraninfo de uma turma de medicina, talvez eu falasse da importância do médico que coloca o amor ao próximo acima dos seus lucros profissionais. Mas, como sou paraninfo de uma turma de engenheiros, vou falar da importância do engenheiro para o desenvolvimento do Brasil.

Para começar, vamos falar de bananas e do doce de banana, que eu vou chamar de bananada especial, inventada (ou projetada) pela nossa vovozinha lá em casa, depois que várias receitas prontas não deram certo. É isso mesmo. Para entendermos a importância do engenheiro vamos falar de bananas, bananadas e vovó.

A banana é um recurso natural, que não sofreu nenhuma transformação. A bananada é = a banana + outros ingredientes + a energia térmica fornecida pelo fogão + o trabalho da vovó e + o conhecimento, ou tecnologia da vovó. A bananada é um produto pronto, que eu vou chamar de riqueza. E a vovó? Bem, a vovó é a dona do conhecimento, uma espécie de engenheira da culinária.

Agora, vamos supor que a banana e a bananada sejam vendidas. Um quilo de banana custa um real. Já um quilo da bananada custa cinco reais. Por que essa diferença de preços? Porque quando nós colhemos um cacho de bananas na bananeira, criamos apenas um emprego: o de colhedor de bananas. Agora, quando a vovó, ou a indústria, faz a bananada, ela cria empregos na indústria do açúcar, da cana-de-açúcar, do gás de cozinha, na indústria de fogões, de panelas, de colheres e até na de embalagens, porque tudo isto é necessário para se fabricar a bananada.

Resumindo, 1kg de bananada é mais caro do que 1kg de banana porque a bananada é igual a banana mais a tecnologia agregada, e a sua fabricação criou mais empregos do que simplesmente colher o cacho de bananas da bananeira.

Agora vamos falar de outro exemplo que acontece no dia-a-dia no comércio mundial de mercadorias. Em média: 1kg de soja custa US$ 0,10 (dez centavos de dólar), 1kg de automóvel custa US$ 10, isto é, 100 vezes mais, 1kg de aparelho eletrônico custa US$ 100, 1kg de avião custa US$1.000 (10mil quilos de soja) e 1kg de satélite custa US$ 50.000.

Vejam, quanto mais tecnologia agregada tem um produto, maior é o seu preço, mais empregos foram gerados na sua fabricação. Os países ricos sabem disso muito bem. Eles investem na pesquisa científica e tecnológica. Por exemplo: eles nos vendem uma placa de computador que pesa 100g porUS$250. Para pagarmos esta plaquinha eletrônica, o Brasil precisa exportar 20 toneladas de minério de ferro. A fabricação de placas de computador criou milhares de bons empregos lá no estrangeiro, enquanto que a extração do minério de ferro, cria pouquíssimos e péssimos empregos aqui no Brasil. O Japão é pobre em recursos naturais, mas é um país rico. O Brasil é rico em energia e recursos naturais, mas é um país pobre. Os países ricos, são ricos materialmente porque eles produzem riquezas.

Riqueza vem de rico. Pobreza vem de pobre. País pobre é aquele que não consegue produzir riquezas para o seu povo. Se conseguisse, não seria pobre, seria país rico. Gostaria de deixar bem claro três coisas: 1º) quando me refiro à palavra riqueza, não estou me referindo a jóias nem a supérfluos. Estou me referindo àqueles bens necessários para que o ser humano viva com um mínimo de dignidade e conforto; 2º) não estou defendendo o consumismo materialista como uma forma devida, muito pelo contrário; 3º) e acho abominável aqueles que colocam os valores das riquezas materiais acima dos valores da riqueza interior do ser humano. Existem nações que são ricas, mas que agem de forma extremamente pobre e desumana em relação a outros povos.

Creio que agora posso falar do ponto principal. Para que o nosso Brasil se torne um País rico, com o seu povo vivendo com dignidade, temos que produzir mais riquezas. Para tal, precisamos de conhecimento, ou tecnologia, já que temos abundância de recursos naturais e energia. E quem desenvolve tecnologias são os cientistas e os engenheiros, como estes jovens que estão se formando hoje. Infelizmente, o Brasil é muito dependente da tecnologia externa. Quando fabricamos bens com alta tecnologia, fazemos apenas a parte final da produção.

Por exemplo: o Brasil produz 5 milhões de televisores por ano e nenhum brasileiro projeta televisor. O miolo da TV, do telefone celular e de todos os aparelhos eletrônicos, é todo importado. Somos meros montadores de kits eletrônicos. Casos semelhantes também acontecem na indústria mecânica, de remédios e, incrível, até na de alimentos. O Brasil entra com a mão-de-obra barata e os recursos naturais. Os projetos, a tecnologia, o chamado pulo do gato, ficam no estrangeiro, com os verdadeiros donos do negócio. Resta ao Brasil lidar com as chamadas caixas pretas.

É importante compreendermos que os donos dos projetos tecnológicos são os donos das decisões econômicas, são os donos do dinheiro, são os donos das riquezas do mundo. Assim como as águas dos rios correm para o mar, as riquezas do mundo correm em direção aos países detentores das tecnologias avançadas. A dependência científica e tecnológica acarretou para nós brasileiros a dependência econômica, política e cultural. Não podemos admitir a continuação da situação esdrúxula, onde 70% do PIB brasileiro é controlado por não residentes. Ninguém pode progredir entregando o seu talão de cheques e a chave de sua casa para o vizinho fazer o que bem entender.

Eu tenho a convicção que desenvolvimento científico e tecnológico aqui no Brasil garantirá aos brasileiros a soberania das decisões econômicas, políticas e culturais. Garantirá trocas mais justas no comércio exterior. Garantirá a criação de mais e melhores empregos. E, se toda a produção de riquezas for bem distribuída, teremos a erradicação dos graves problemas sociais.

O curso de engenharia da UERJ, com todas as suas possíveis deficiências, visa a formar engenheiros capazes de desenvolver tecnologias. É o chamado engenheiro de concepção, ou engenheiro de projetos. Infelizmente, o mercado nacionalizado nem sempre aproveita todo este potencial científico dos nossos engenheiros. Nós, professores, não podemos nos curvar às deformações do mercado. Temos que continuar formando engenheiros com conhecimentos iguais aos melhores do mundo. Eu posso garantir a todos os presentes, principalmente aos pais, que qualquer um destes formandos é tão ou mais inteligente do que qualquer engenheiro americano, japonês ou alemão.

Os meus trinta anos de magistério, lecionando desde o antigo ginásio até a universidade, me dão autoridade para afirmar que o brasileiro não é inferior a ninguém. Pelo contrário, dizem até que somos muito mais criativos do que os habitantes do chamado primeiro mundo. O que me revolta, como professor cidadão, é ver que as decisões políticas tomadas por pessoas despreparadas ou corruptas são responsáveis pela queima e destruição de inteligências brasileiras que poderiam, com oconhecimento apropriado, transformar o nosso Brasil num país florescente, próspero e socialmente justo. Acredito que o mundo ideal seja aquele totalmente globalizado, mas uma globalização que inclua a democratização das decisões e a distribuição justa do trabalho e das riquezas. Infelizmente, isto ainda está longe de acontecer, até por limitações físicas da própria natureza.

Assim, quem pensa que a solução para os nossos problemas virá lá defora, está muito enganado.

O dia que um presidente da República, ao invés de ficar passeando como um dândi pelos palácios do primeiro mundo, resolver liderar um autêntico projeto de desenvolvimento nacional, certamente o Brasil vai precisar, em todas as áreas, de pessoas bem preparadas. Só assim seremos capazes de caminhar com autonomia e tomar decisões que beneficiem verdadeiramente a sociedade brasileira. Será a construção de um Brasil realmente moderno, mais justo, inserido de forma soberana na economia mundial e não como um réles fornecedor de recursos naturais e mão-de-obra aviltada. Quando isto ocorrer, e eu espero que seja em breve, o nosso País poderá aproveitar de forma muito mais eficaz a inteligência e o preparo intelectual dos brasileiros e, em particular, de todos vocês, meus queridos alunos, porque vocês já foram testados e aprovados.

Finalmente, gostaria de parabenizar a todos os pais pela contribuição positiva que deram à nossa sociedade possibilitando a formação dos seus filhos no curso de engenharia da UERJ. A alegria dos senhores, também é a nossa alegria.

Muito Obrigado. "

Weber Figueiredo

Menina

Brasília, DF, 2005)

19 dezembro 2005

Musa (iii)

(Stratford-on-Avon, UK, 1975)

ALERTA Vermelho

Barra Mansa, Petrópolis, RJ, 2005
Species of the gender Bromelia are being destroyed systematically in the area of the Cerrado to give place to plantations of rice, corn and, mainly for the soy cultivation. Many endemic species were already decimated and another takes similar risk. Species that grow directly in the soil are pulled by the tractors and later burning.
http://www.cactos.com.br/us/index.php?option=content&task=view&id=121&Itemid=1

Mudança de cores

Barra Mansa, Petrópolis, RJ, 2005
Dias, meses, anos, décadas terminam de forma espetácular ou pedindo para serem esquecidos para sempre.
Faltam pouco mais de dez dias para o final deste melancólico ano brasileiro de 2005. Que o próximo nos venha com novas cores ....

18 dezembro 2005

Paradoxo dos fantasmas

Secretário, Petrópolis, RJ, 2005
Certas luzes que nos parecem fracas só tornam as sombras mais fortes.

Semente

Paris, França, 1974
E aí eu pergunto ? Cultura tem sementes ?

"Na província de Dalian, na China, há 22 universidades, com 200 mil estudantes. Todos, inclusive os alunos de letras, passam um ano estudando inglês (ou japonês) e ciências da computação. ...." - Elio Gaspari, O Globo, 18 de dezembro de 2005

Enquanto isto, por aqui, o que andamos plantando ? Soja, basta ?

Musa (ii)


Stubbington, Hampshire, UK, 1976

17 dezembro 2005

Oficina de Agosto

(Oficina de Agosto - Bichinhos, Prado, MG)

Transformações


Barra Mansa, Petrópolis, RJ, 2005
Inexoráveis são as transformações, muito embora, às vezes, muito lentas.

Ontem foi um dia tipicamente brasileiro, carioca, baiano, sei lá.

Pela tarde, uma festa antecipada de Natal para crianças carentes : o pipoqueiro esquecendo de trazer o botijão de gás; Papai Noel, à caráter, deixando em alguma chaminé o que seria o grande saco para carregar os presentes da meninada; os animadores, mais de uma hora atrasados; e a água que se negou a jorrar nos banheiros. Seis horas da tarde, o piso parecia imitar o do encerramento do Rock-in-Rio.

À noite, uma festa de aniversário com direito a "cover" dos Beatles (um pouco mais barulhentos e com menos talento, é claro, mas isto é detalhe). Show programado para as vinte e duas horas, ensaio quase à meia noite e o guitarrista (que mais parecia o Phil Collins) chegando mais uma hora à frente, sob risos e brincadeiras da banda. Profissionalismo tropical ....

As transformações precisam ser inexoravelmente mais rápidas.

Precisamos mudar o Brasil. Sem perder as cores como a bromélia deste CLIQUE.

16 dezembro 2005

Criação

Barra Mansa, Petrópolis, RJ, 2004
De restos perdidos num canto, bancos que nos acompanham. Inspiração da necessidade, criação em momentos difíceis.

Musa (i)

Em algum lugar do passado, um CLIQUE na noite ...

14 dezembro 2005

Spot

Não sei se foi "dos deuses", mas o coelho estava maravilhoso, aliás como todo o almoço naquele domingo de pouco sol na Pousada do Gulherme (Secretário, Petrópolis, RJ) . Na saída, um spot iluminava a árvore já banhada pela luz da tarde. Não houve como resistir : mais um CLIQUE para a coleção.