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31 dezembro 2004
Piaçava e o Reveillon
Murilo Galvão
(*) - Para os leitores de primeira visita : Piaçava da Silva é o principal personagem e musa deste blog. Sua origem e estórias podem ser lidos em outros artigos anteriores.
- Acho que desta vez o castigo virou tortura. Já estou aqui há mais de uma semana, amarrada a mais umas três Piaçavas, deitadas, no escuro e sobre uma prateleira fria de algum depósito. Não aparece ninguém para nos ajudar. Já tentamos conversar algumas vezes mas só ouvimos lamúrias, umas das outras. Não dá para falar de outras coisas, mesmo. Por isto, volta sempre este silêncio, de tantas horas ou dias, sei lá ... Para não dizer que não ouvimos nada, de bem longe escuto muitos tiros mas acho mesmo que são fogos estourando no ar. Devem estar comemorando alguma coisa, como nos meus tempos de criança, dias do Divino, São João, Santo Antonio, Ano Novo ou casamentos alegres, lá pelas bandas de Cairú ou Valença.
Esta noite, não por causa dos estouros, dormi novamente muito mal. Entre tantos sobressaltos que não sei bem o porquê - talvez pela posição que não me deixa mexer o corpo, acabei sonhando, um sonho muito esquisito.
Nunca soube contar meus sonhos, este então .... Acho que, e não sei porque, procurava chegar à uma porta que era muito larga, branca, coberta por muitas flores. Alguma coisa me dizia que se chegasse lá, do outro lado, estaria livre, encontraria esperanças, a de uma vida melhor, quem sabe voltar para minha terra, deixar a escravidão para trás ?
Acontece que a porta estava longe. Sumia e desapareceia a todo momento de minha vista. Entre ela e eu havia um corredor por onde eu já havia iniciado uma carreira louca em direção àquela porta, de todas as minhas esperanças.
O corredor era largo mas, às vêzes, ficava muito estreito. Não era sempre plano : subia e descia como nas ladeiras da Bahia. Por uns momentos ficava iluminado para logo escurecer. Fazia muito calor alí no início, mas depois observei que esfriou. Para mim, era como uma pista de obstáculos. Pior de tudo é que, não sendo reto, quase sempre escondia a minha porta e eu perdia a noção do tempo e da distância que ainda teria pela frente. Resolvi ir mais devagar. Precisava alcançar e abrir aquela porta. Encontrar minhas esperanças.
Como disse, no início era quente e o quente se misturava com muita chuva, que trazia sujeiras, que trazia um enorme trabalho para mim. Ouvi alguns gritos, choros mas não tive tempo para saber de onde vinham e o porquê. Fiz meu trabalho e fui em frente.
A música era muito alta, as luzes muito fortes, a alegria parecia ser enorme. Por uns quatro dias tive que ficar em pé, num canto, manipulada por alguns homens de amarelo-abóbora e trabalhei muito, muito mesmo, pois tudo alí – naquele pedaço do corredor – era exagerado. Inclusive a sujeira que aquele mundo de pessoas deixava para trás. Por sorte, por uns minutos apenas, um daqueles homens de amarelo me tirou para dançar. Em suas mãos, como se fosse um estandarte, bailei alí naquele corredor alegre e muito largo. Descansei e tive um momento de felicidade.
E vieram outros pedaços. Passei por muitos trechos que mais pareciam arenas de lutas mas acho que eram simples jogos de futebol. Tudo era muito bonito, nada parecido com as peladas que, do alto, assistia, quando criança, a molecada jogar. E naquele trecho de meu sonho e do corredor tive que empurrar muitas garrafas e latas, papeis sujos misturados com muito mijo.
Como tentei explicar, havia de tudo naquele corredor-labirinto onde havia me metido. Por sorte andei também sobre tapetes macios. Naquelas horas, aproveitei para tomar um pouco de ar. De vez em quando via, de relance, a porta salvadora, agora um pouco mais perto, imaginava.
Andei também, encostada, sem fazer nada, em algumas salas luxuosas, o que me exasperava. Aquele não era o meu mundo e eu poderia fracassar. Pelos cantos, podia ouvir conversas que não tenho coragem de contar. Nem em sonho. Engraçado, sempre me pareceram acontecer naquelas salas, acho que escritórios. O ar condicionado e os homens, frios, me davam esta impressão.
Os momentos de escuridão naquele corredor, todos se pareceram com os já vividos em becos escuros por onde já havia passado. Podia ouvir palavras sem nexo e roncos de bêbados, gemidos de alguns que devia estar doentes. Carregada pelos mais sóbrios, fiz a minha parte ajudando todos eles a catar seus pedaços de papeis e bolachas de metal, latas amassadas.
Acho que o pior momento da travessia foi quando a pista ficou inclinada. Subia cada vez mais, descia e tornava a subir, sem cessar, todos os dias. Pensei em desistir pois não aguentaria muito tempo naquele exercício. Por sorte, tive que parar algumas vezes. Sempre que ouvia tiros e, desta vez, acho que eram tiros mesmo. Voltava ao trabalho empurrando, morro abaixo, tudo que encontrava. E mais subia, mais trabalhava, mais plásticos, pedaços de pau, móveis, outras Piaçavas – já velhas, quase mortas – tudo tinha que levar morro abaixo em busca das minhas esperanças.
O piso que era negro como asfalto, de repente, se tornou da cor marrom, um marrom rachado por estrias da terra seca. Sentí logo o cheiro e as lembranças vieram. Foi um momento de recordações. O trabalho de vencer aquele obstáculo era fácil e agradável. O terreiro era pequeno, as folhas da árvores que caiam eram poucas, a titica das galinhas e dos patos que não paravam de sujar tudo logo secavam e eu ia em frente. Havia até uma mulher – engraçado – que de vez em quando vinha me pegar para correr atrás de umas crianças que riam, gritavam - provocando a velha - e desapareciam por detrás do mato próximo. Isto andou me atrasando um pouco mas me divertí naquele pedaço.
E assim fui indo, aos trancos e barrancos em minha alucinada busca. Andei até embarcada, navio cheirando a peixe. De tão enjoada fiquei, só me lembro da volta, pisando sobre vísceras de peixes, cascas de camarões, disputando espaço com biguás. Por pouco não caio n’água ...
E, por falar em aves, aqueles urubús. Foi um pesadelo dentro do sonho, quase pesadelo que ia vivendo. Pilhas e mais pilhas fechando o meu caminho salvador. E eu, suando, tentando limpar toda aquela montanha de imundícies. Por sorte algumas crianças – coitadas e inocentes – e mais uns maltrapilhos que estavam por perto me ajudaram a deixar tudo aquilo para trás e ir em frente. Alí, melhor trabalhar mesmo com as mãos, aprendí.
E assim fui, o tempo passando, a bendita porta da minha esperança cada vez mais perto. Agora já podia vê-la, quase tocá-la. Entre nós, quase nada. Apenas uma bifurcação. Escolhi um dos caminhos e fui em frente. Naquele trecho, podia distinguir uma árvore verde, muito iluminada, coberta pela metade por caixas coloridas. Havia muitas crianças excitadas e adultos sorridentes. Vencer aquele pedaço foi muito fácil : apenas muitos papeis sedosos e caixas brilhantes, rasgados e espalhados pelo chão, ao final da passagem. De tão tranquila estava, tive tempo de olhar para a parede de vidro do corredor, a que me separava da trilha que havia evitado. Do outro lado, mais algumas crianças e adultos. Quase a mesma cena, mas não haviam árvores verdes iluminadas, nem sorrisos, nem caixas para eu catar. Apesar disto, não cheguei a me arrepender da escolha. Fui em frente.
Agora estava diante da porta. O coração batia a mil. O medo de cair alí e perder tudo me assustou. Resolvi parar para descansar e refletir.
Olhei para trás e ví por onde havia passado, o que havia feito. Ganhei coragem com tanto orgulho, não havia mais como desistir, a esperança não poderia me abandonadar, jamais. Abrí a porta larga, branca, coberta de flores e me lancei, quase desesperada.
Ao abrir os olhos, estava sobre a areia cinza e molhada de uma praia. A faixa de areia branca e seca parecia ser muito grande, quase um deserto para mim, pequenina, deitada alí, ainda indo e vindo com aquelas ondas fracas que procuravam me dar forças, fazendo o meu trabalho.
Longe, podia ver muitos edifícios, altos, coloridos. Tinha a impressão que haviam pessoas além daquelas janelas, algumas dançavam. Ouvia uma música, ou melhor, eram muitas, se misturando confusamente em meus ouvidos.
Mais perto, mas ainda distante, outras pessoas, em grupo, todas cobertas de branco sobre o fundo negro da noite, formando um estranho contraste para minha visão.
Bem próximo a mim, um corpo de homem, deitado, caído, levemente sendo lavado pelas ondas que chegavam até êle. Não estava morto, com certeza, pois cantava algumas palavras sem sentido. Devia estar bêbado.
E eu alí, deitada, em êxtase ainda, pude observar então o meu mundo, o da esperança que vinha de tão longe buscar. Flores e mais flores, latas, jornais, algumas algas verdes, quase negras, muitas garrafas, tudo indo e vindo lentamente - até algumas camisinhas e charutos - ao sabor da maré vazante. Estavam todos esperando por mim, pensei.
E me dei conta que a esperança que viera buscar era Eu, nada mais.
Então adormeci, aguardando o nascer do dia daquele Ano Novo de mais trabalho.
(*) - Para os leitores de primeira visita : Piaçava da Silva é o principal personagem e musa deste blog. Sua origem e estórias podem ser lidos em outros artigos anteriores.
- Acho que desta vez o castigo virou tortura. Já estou aqui há mais de uma semana, amarrada a mais umas três Piaçavas, deitadas, no escuro e sobre uma prateleira fria de algum depósito. Não aparece ninguém para nos ajudar. Já tentamos conversar algumas vezes mas só ouvimos lamúrias, umas das outras. Não dá para falar de outras coisas, mesmo. Por isto, volta sempre este silêncio, de tantas horas ou dias, sei lá ... Para não dizer que não ouvimos nada, de bem longe escuto muitos tiros mas acho mesmo que são fogos estourando no ar. Devem estar comemorando alguma coisa, como nos meus tempos de criança, dias do Divino, São João, Santo Antonio, Ano Novo ou casamentos alegres, lá pelas bandas de Cairú ou Valença.
Esta noite, não por causa dos estouros, dormi novamente muito mal. Entre tantos sobressaltos que não sei bem o porquê - talvez pela posição que não me deixa mexer o corpo, acabei sonhando, um sonho muito esquisito.
Nunca soube contar meus sonhos, este então .... Acho que, e não sei porque, procurava chegar à uma porta que era muito larga, branca, coberta por muitas flores. Alguma coisa me dizia que se chegasse lá, do outro lado, estaria livre, encontraria esperanças, a de uma vida melhor, quem sabe voltar para minha terra, deixar a escravidão para trás ?
Acontece que a porta estava longe. Sumia e desapareceia a todo momento de minha vista. Entre ela e eu havia um corredor por onde eu já havia iniciado uma carreira louca em direção àquela porta, de todas as minhas esperanças.
O corredor era largo mas, às vêzes, ficava muito estreito. Não era sempre plano : subia e descia como nas ladeiras da Bahia. Por uns momentos ficava iluminado para logo escurecer. Fazia muito calor alí no início, mas depois observei que esfriou. Para mim, era como uma pista de obstáculos. Pior de tudo é que, não sendo reto, quase sempre escondia a minha porta e eu perdia a noção do tempo e da distância que ainda teria pela frente. Resolvi ir mais devagar. Precisava alcançar e abrir aquela porta. Encontrar minhas esperanças.
Como disse, no início era quente e o quente se misturava com muita chuva, que trazia sujeiras, que trazia um enorme trabalho para mim. Ouvi alguns gritos, choros mas não tive tempo para saber de onde vinham e o porquê. Fiz meu trabalho e fui em frente.
A música era muito alta, as luzes muito fortes, a alegria parecia ser enorme. Por uns quatro dias tive que ficar em pé, num canto, manipulada por alguns homens de amarelo-abóbora e trabalhei muito, muito mesmo, pois tudo alí – naquele pedaço do corredor – era exagerado. Inclusive a sujeira que aquele mundo de pessoas deixava para trás. Por sorte, por uns minutos apenas, um daqueles homens de amarelo me tirou para dançar. Em suas mãos, como se fosse um estandarte, bailei alí naquele corredor alegre e muito largo. Descansei e tive um momento de felicidade.
E vieram outros pedaços. Passei por muitos trechos que mais pareciam arenas de lutas mas acho que eram simples jogos de futebol. Tudo era muito bonito, nada parecido com as peladas que, do alto, assistia, quando criança, a molecada jogar. E naquele trecho de meu sonho e do corredor tive que empurrar muitas garrafas e latas, papeis sujos misturados com muito mijo.
Como tentei explicar, havia de tudo naquele corredor-labirinto onde havia me metido. Por sorte andei também sobre tapetes macios. Naquelas horas, aproveitei para tomar um pouco de ar. De vez em quando via, de relance, a porta salvadora, agora um pouco mais perto, imaginava.
Andei também, encostada, sem fazer nada, em algumas salas luxuosas, o que me exasperava. Aquele não era o meu mundo e eu poderia fracassar. Pelos cantos, podia ouvir conversas que não tenho coragem de contar. Nem em sonho. Engraçado, sempre me pareceram acontecer naquelas salas, acho que escritórios. O ar condicionado e os homens, frios, me davam esta impressão.
Os momentos de escuridão naquele corredor, todos se pareceram com os já vividos em becos escuros por onde já havia passado. Podia ouvir palavras sem nexo e roncos de bêbados, gemidos de alguns que devia estar doentes. Carregada pelos mais sóbrios, fiz a minha parte ajudando todos eles a catar seus pedaços de papeis e bolachas de metal, latas amassadas.
Acho que o pior momento da travessia foi quando a pista ficou inclinada. Subia cada vez mais, descia e tornava a subir, sem cessar, todos os dias. Pensei em desistir pois não aguentaria muito tempo naquele exercício. Por sorte, tive que parar algumas vezes. Sempre que ouvia tiros e, desta vez, acho que eram tiros mesmo. Voltava ao trabalho empurrando, morro abaixo, tudo que encontrava. E mais subia, mais trabalhava, mais plásticos, pedaços de pau, móveis, outras Piaçavas – já velhas, quase mortas – tudo tinha que levar morro abaixo em busca das minhas esperanças.
O piso que era negro como asfalto, de repente, se tornou da cor marrom, um marrom rachado por estrias da terra seca. Sentí logo o cheiro e as lembranças vieram. Foi um momento de recordações. O trabalho de vencer aquele obstáculo era fácil e agradável. O terreiro era pequeno, as folhas da árvores que caiam eram poucas, a titica das galinhas e dos patos que não paravam de sujar tudo logo secavam e eu ia em frente. Havia até uma mulher – engraçado – que de vez em quando vinha me pegar para correr atrás de umas crianças que riam, gritavam - provocando a velha - e desapareciam por detrás do mato próximo. Isto andou me atrasando um pouco mas me divertí naquele pedaço.
E assim fui indo, aos trancos e barrancos em minha alucinada busca. Andei até embarcada, navio cheirando a peixe. De tão enjoada fiquei, só me lembro da volta, pisando sobre vísceras de peixes, cascas de camarões, disputando espaço com biguás. Por pouco não caio n’água ...
E, por falar em aves, aqueles urubús. Foi um pesadelo dentro do sonho, quase pesadelo que ia vivendo. Pilhas e mais pilhas fechando o meu caminho salvador. E eu, suando, tentando limpar toda aquela montanha de imundícies. Por sorte algumas crianças – coitadas e inocentes – e mais uns maltrapilhos que estavam por perto me ajudaram a deixar tudo aquilo para trás e ir em frente. Alí, melhor trabalhar mesmo com as mãos, aprendí.
E assim fui, o tempo passando, a bendita porta da minha esperança cada vez mais perto. Agora já podia vê-la, quase tocá-la. Entre nós, quase nada. Apenas uma bifurcação. Escolhi um dos caminhos e fui em frente. Naquele trecho, podia distinguir uma árvore verde, muito iluminada, coberta pela metade por caixas coloridas. Havia muitas crianças excitadas e adultos sorridentes. Vencer aquele pedaço foi muito fácil : apenas muitos papeis sedosos e caixas brilhantes, rasgados e espalhados pelo chão, ao final da passagem. De tão tranquila estava, tive tempo de olhar para a parede de vidro do corredor, a que me separava da trilha que havia evitado. Do outro lado, mais algumas crianças e adultos. Quase a mesma cena, mas não haviam árvores verdes iluminadas, nem sorrisos, nem caixas para eu catar. Apesar disto, não cheguei a me arrepender da escolha. Fui em frente.
Agora estava diante da porta. O coração batia a mil. O medo de cair alí e perder tudo me assustou. Resolvi parar para descansar e refletir.
Olhei para trás e ví por onde havia passado, o que havia feito. Ganhei coragem com tanto orgulho, não havia mais como desistir, a esperança não poderia me abandonadar, jamais. Abrí a porta larga, branca, coberta de flores e me lancei, quase desesperada.
Ao abrir os olhos, estava sobre a areia cinza e molhada de uma praia. A faixa de areia branca e seca parecia ser muito grande, quase um deserto para mim, pequenina, deitada alí, ainda indo e vindo com aquelas ondas fracas que procuravam me dar forças, fazendo o meu trabalho.
Longe, podia ver muitos edifícios, altos, coloridos. Tinha a impressão que haviam pessoas além daquelas janelas, algumas dançavam. Ouvia uma música, ou melhor, eram muitas, se misturando confusamente em meus ouvidos.
Mais perto, mas ainda distante, outras pessoas, em grupo, todas cobertas de branco sobre o fundo negro da noite, formando um estranho contraste para minha visão.
Bem próximo a mim, um corpo de homem, deitado, caído, levemente sendo lavado pelas ondas que chegavam até êle. Não estava morto, com certeza, pois cantava algumas palavras sem sentido. Devia estar bêbado.
E eu alí, deitada, em êxtase ainda, pude observar então o meu mundo, o da esperança que vinha de tão longe buscar. Flores e mais flores, latas, jornais, algumas algas verdes, quase negras, muitas garrafas, tudo indo e vindo lentamente - até algumas camisinhas e charutos - ao sabor da maré vazante. Estavam todos esperando por mim, pensei.
E me dei conta que a esperança que viera buscar era Eu, nada mais.
Então adormeci, aguardando o nascer do dia daquele Ano Novo de mais trabalho.
30 dezembro 2004
Reflexão sobre a evolução
Murilo Galvão
Em todas as esquinas, ruas e bairros artistas expoem suas coleções. Nos tabuleiros simples, nas caras galerias ou famosos museus, todos somos artistas. Afinal, a qualidade da Arte é inversamente proporcional ao número de artistas ?
(opiniões nos "Comments" abaixo)
Em todas as esquinas, ruas e bairros artistas expoem suas coleções. Nos tabuleiros simples, nas caras galerias ou famosos museus, todos somos artistas. Afinal, a qualidade da Arte é inversamente proporcional ao número de artistas ?
(opiniões nos "Comments" abaixo)
29 dezembro 2004
Pitada de otimismo
Em final de ano, quando precisamos carregar baterias de esperanças e criar motivações para o próximo que se aproxima, é sempre bom ler algo do gênero.
Fotografia : o fim de uma Arte
Murilo Galvão
Desde pequeno, o clique ouvido da máquina fotográfica me fascina. Antes, era como um jingle rápido e suave vindo do diafrágma ou obturador sendo aberto para, em seguida, fechar-se no interior escuro daquelas maravilhosas máquinas. Quando havia pouca luz, então, a sinfonia era um pouco mais longa, para meu puro deleite. Como era gostoso selecionar-se o “B” daquele velho caixote e comandar o ir e vir do obturador ... Mesmo sem filme, pegava-me ouvindo cliques a êsmo, com a velha máquina às mãos.
Uso vários “era” pois tudo está desaparecendo no mundo moderno e digital. Já não se ouvem mais os cliques do passado. Percebendo que muito do encanto da fotografia fica no prazer também auditivo dos fotógrafos, fabricantes estão voltando a incorpora-lo em seus lançamentos. As novas máquinas, estas também, estão, na forma e no estilo, retornando àquele passado.
No que se refere aos nossos cliques, hoje, com um ajuste nos sempre presentes “menus”, pode-se criar um fajuto, virtual, arremedo dos velhos diafragmas arrastando-se ou abrindo-se com elegância e charme. Dá para matar a saudade, mesmo sabendo-o falso.
Pixels ou sensores não fazem nem jamais farão cliques reais. Parte do encanto se foi. CLIQUE, nome deste blog, é uma simples homenagem àquele passado que muitos não conheceram.
E quanto à Arte, da ou na Fotografia ?
Retornando à minha infância, tenho como uma das primeiras lembranças a com meu pai dentro de câmara escura em um hospital de Salvador, revelando chapas de raios-x. Nas horas vagas, êle que também foi fotógrafo profissional, sem grandes pretensões artísticas, muito mais interessado em complementar as rendas da família, me deixava acompanha-lo em seu laboratório, em algum quarto da casa.
Um de meus primeiros objetos de desejo (material) foi um ampliador (ou seria amplificador ?). Via, brincava, operava o do estúdio caseiro e ainda desejava um para mim, mais moderno, onde pudesse criar as fotos que só na minha imaginação existiam.
Alí, afogados em luzes quase sempre vermelhas, trabalhávamos entre bacias com produtos químicos. Revelávamos o filme que era posto a secar em varais improvisados, de pura poesia estética; depois, a ampliaçao com alguns toques pessoais, novos tratamentos químicos para a revelação da imagem que ia surgindo lentamete do papel imerso, já queimado e branco; finalmente, a lavagem e a secagem das fotos, uma a uma, todas em preto e branco.
Depois, tudo isto se repetindo na época colegial. Acho que foi a primeira coisa “fundada” por mim : um Grêmio Fotográfico onde trocava o devido estudo por horas de mergulho nas mesmas luzes sensuais e vermelhas de antes.
Era um processo que revelava a arte de alguns, a Arte contida na Fotografia, momento ou objeto captado pela câmera e pela sensibilidade do artista-fotógrafo. Muito pouco se fazia (ou se podia fazer) para alterar o modelo captado.
O preto e o branco ajudavam no fascínio pelas obras criadas e promoviam uma Arte que era própria e específica.
E aí vieram os filmes Kodakchrome, Ektachrome e outros coloridos do gênero. Era o início do processo, da popularizaçao da Fotografia, dos preços baixos, da urgência dos resultados, da pouca importância com a qualidade. E tudo começou a ruir quando chegaram os elefantes brancos, aquelas máquinas enormes colocadas por detrás das vitrines de lojas e pelos shoppings, revelando e ampliando nossas fotos em cada vez mais urgentes uma hora. Um clique despretencioso e todos almejando o “Oh !” final e imediato de admiração, reconhecimento da obra de arte produzida e já sem qualidade.
Os laboratórios foram desaparecendo e, com eles, a verdadeira Arte fotográfica. Além do que já se fazia no passado, com o preto e branco, agora se manipulava, com muito mais intensidade e resultados, as cores dos cliques tomados.
Já que o caminho estava aberto, o processo continuou e vieram as digitais. O aponte e dispare seguiu o seu caminho acelerado para os preguiçosos com pressa. Só uns poucos, atentos e sensíveis, não se renderam ao método. Mas o mal já estava feito.
No interior diabólico das digitais o mundo é mais complexo e manipulador do que pensam conhecer os mortais como nós. O ato mecânico, simples, singelo, do obturador se movendo se foi, como já comentamos, substituído por sensores, pixels. Não bastasse isto, as maquininhas têm cérebro (eletrônico como já se usou dizer um dia). E estes monstrinhos são os que arruinaram a Arte de que falamos. Interpolam (matematicamente, sem que ninguém saiba ou precise saber como), aplicam filtros, medem a intensidade da luz, advinham o que você quer (se é que quer, realmente) ou simplesmente lhe tratam como mais um robô-fotógrafo; e, pronto. Aperte o “review”para ver se o produto lhe agrada. Não ? Então, faça tudo de novo ... Nem mais o custo financeiro de toda a operação nos incomoda. Gigabaites de memória estão alí para o nosso disperdício.
Dirão os mais reacionários à esta análise que é verdade, mas que estamos voltando ao passado, nada está perdido ... temos ainda o modo Manual de operação, que o resultado da foto depende do que o fotógrafo ajustar, etc, etc. Ok, aceito como meia verdade, pois os filtros internos e tratamentos imediatos e não solicitados estão presentes, ainda aplicados à nossa revelia, descaracterizando a nossa capacidade de criação. O que se capta – de todas as formas - não é mais a realidade real, se me permitem a redundância e o ênfase ao estrago.
Dirão, em seguida, estes críticos : e as fotos sem compressão (raw, tiff, etc – para os que entendem do que se trata) ? Não captam o que você quer ? Você escolhe o que deseja reproduzir e a máquina não vai interferir, exatamente como era antes ....
Sim, mas o que fazemos com elas, depois ? Para que servem senão para nos levar ao computador e com os Photoshop da vida altera-las completamente : luz, intensidade de branco, máscaras, camadas, composições, resolução, tamanho, para ficar só nestes termos mais conhecidos. Simplesmente mudamos o timing e o responsável pela cirurgia, do instante do falso clique, pelo chip da máquina, para o Photoshop manipulado por editores-pretensos artistas
A foto obtida, de qualquer forma, é um produto idêntico ao que se obtém após uma abrangente e extensa cirurgia plástica. Consegue-se tornar uma (querida) Dercy Gonçalves dos dias de hoje numa exuberante Ciccarelli, a nova Dercy do amanhã que vai chegar.
São lindas (as fotos), impressionantes, como as vemos nas revistas, outdoors, galerias e exposições. Pura criação, resultado de uma Arte que se transformou em Ciência.
O CLIQUE, nome deste pequeno espaço, é também uma homenagem a mais uma ARTE que vai inexoravelmente desaparecendo, para a nossa tristeza.
Desde pequeno, o clique ouvido da máquina fotográfica me fascina. Antes, era como um jingle rápido e suave vindo do diafrágma ou obturador sendo aberto para, em seguida, fechar-se no interior escuro daquelas maravilhosas máquinas. Quando havia pouca luz, então, a sinfonia era um pouco mais longa, para meu puro deleite. Como era gostoso selecionar-se o “B” daquele velho caixote e comandar o ir e vir do obturador ... Mesmo sem filme, pegava-me ouvindo cliques a êsmo, com a velha máquina às mãos.
Uso vários “era” pois tudo está desaparecendo no mundo moderno e digital. Já não se ouvem mais os cliques do passado. Percebendo que muito do encanto da fotografia fica no prazer também auditivo dos fotógrafos, fabricantes estão voltando a incorpora-lo em seus lançamentos. As novas máquinas, estas também, estão, na forma e no estilo, retornando àquele passado.
No que se refere aos nossos cliques, hoje, com um ajuste nos sempre presentes “menus”, pode-se criar um fajuto, virtual, arremedo dos velhos diafragmas arrastando-se ou abrindo-se com elegância e charme. Dá para matar a saudade, mesmo sabendo-o falso.
Pixels ou sensores não fazem nem jamais farão cliques reais. Parte do encanto se foi. CLIQUE, nome deste blog, é uma simples homenagem àquele passado que muitos não conheceram.
E quanto à Arte, da ou na Fotografia ?
Retornando à minha infância, tenho como uma das primeiras lembranças a com meu pai dentro de câmara escura em um hospital de Salvador, revelando chapas de raios-x. Nas horas vagas, êle que também foi fotógrafo profissional, sem grandes pretensões artísticas, muito mais interessado em complementar as rendas da família, me deixava acompanha-lo em seu laboratório, em algum quarto da casa.
Um de meus primeiros objetos de desejo (material) foi um ampliador (ou seria amplificador ?). Via, brincava, operava o do estúdio caseiro e ainda desejava um para mim, mais moderno, onde pudesse criar as fotos que só na minha imaginação existiam.
Alí, afogados em luzes quase sempre vermelhas, trabalhávamos entre bacias com produtos químicos. Revelávamos o filme que era posto a secar em varais improvisados, de pura poesia estética; depois, a ampliaçao com alguns toques pessoais, novos tratamentos químicos para a revelação da imagem que ia surgindo lentamete do papel imerso, já queimado e branco; finalmente, a lavagem e a secagem das fotos, uma a uma, todas em preto e branco.
Depois, tudo isto se repetindo na época colegial. Acho que foi a primeira coisa “fundada” por mim : um Grêmio Fotográfico onde trocava o devido estudo por horas de mergulho nas mesmas luzes sensuais e vermelhas de antes.
Era um processo que revelava a arte de alguns, a Arte contida na Fotografia, momento ou objeto captado pela câmera e pela sensibilidade do artista-fotógrafo. Muito pouco se fazia (ou se podia fazer) para alterar o modelo captado.
O preto e o branco ajudavam no fascínio pelas obras criadas e promoviam uma Arte que era própria e específica.
E aí vieram os filmes Kodakchrome, Ektachrome e outros coloridos do gênero. Era o início do processo, da popularizaçao da Fotografia, dos preços baixos, da urgência dos resultados, da pouca importância com a qualidade. E tudo começou a ruir quando chegaram os elefantes brancos, aquelas máquinas enormes colocadas por detrás das vitrines de lojas e pelos shoppings, revelando e ampliando nossas fotos em cada vez mais urgentes uma hora. Um clique despretencioso e todos almejando o “Oh !” final e imediato de admiração, reconhecimento da obra de arte produzida e já sem qualidade.
Os laboratórios foram desaparecendo e, com eles, a verdadeira Arte fotográfica. Além do que já se fazia no passado, com o preto e branco, agora se manipulava, com muito mais intensidade e resultados, as cores dos cliques tomados.
Já que o caminho estava aberto, o processo continuou e vieram as digitais. O aponte e dispare seguiu o seu caminho acelerado para os preguiçosos com pressa. Só uns poucos, atentos e sensíveis, não se renderam ao método. Mas o mal já estava feito.
No interior diabólico das digitais o mundo é mais complexo e manipulador do que pensam conhecer os mortais como nós. O ato mecânico, simples, singelo, do obturador se movendo se foi, como já comentamos, substituído por sensores, pixels. Não bastasse isto, as maquininhas têm cérebro (eletrônico como já se usou dizer um dia). E estes monstrinhos são os que arruinaram a Arte de que falamos. Interpolam (matematicamente, sem que ninguém saiba ou precise saber como), aplicam filtros, medem a intensidade da luz, advinham o que você quer (se é que quer, realmente) ou simplesmente lhe tratam como mais um robô-fotógrafo; e, pronto. Aperte o “review”para ver se o produto lhe agrada. Não ? Então, faça tudo de novo ... Nem mais o custo financeiro de toda a operação nos incomoda. Gigabaites de memória estão alí para o nosso disperdício.
Dirão os mais reacionários à esta análise que é verdade, mas que estamos voltando ao passado, nada está perdido ... temos ainda o modo Manual de operação, que o resultado da foto depende do que o fotógrafo ajustar, etc, etc. Ok, aceito como meia verdade, pois os filtros internos e tratamentos imediatos e não solicitados estão presentes, ainda aplicados à nossa revelia, descaracterizando a nossa capacidade de criação. O que se capta – de todas as formas - não é mais a realidade real, se me permitem a redundância e o ênfase ao estrago.
Dirão, em seguida, estes críticos : e as fotos sem compressão (raw, tiff, etc – para os que entendem do que se trata) ? Não captam o que você quer ? Você escolhe o que deseja reproduzir e a máquina não vai interferir, exatamente como era antes ....
Sim, mas o que fazemos com elas, depois ? Para que servem senão para nos levar ao computador e com os Photoshop da vida altera-las completamente : luz, intensidade de branco, máscaras, camadas, composições, resolução, tamanho, para ficar só nestes termos mais conhecidos. Simplesmente mudamos o timing e o responsável pela cirurgia, do instante do falso clique, pelo chip da máquina, para o Photoshop manipulado por editores-pretensos artistas
A foto obtida, de qualquer forma, é um produto idêntico ao que se obtém após uma abrangente e extensa cirurgia plástica. Consegue-se tornar uma (querida) Dercy Gonçalves dos dias de hoje numa exuberante Ciccarelli, a nova Dercy do amanhã que vai chegar.
São lindas (as fotos), impressionantes, como as vemos nas revistas, outdoors, galerias e exposições. Pura criação, resultado de uma Arte que se transformou em Ciência.
O CLIQUE, nome deste pequeno espaço, é também uma homenagem a mais uma ARTE que vai inexoravelmente desaparecendo, para a nossa tristeza.
Tudo igual
Murilo Galvão
O que há de diferente no que constatam analistas políticos ou intelectuais, no Brasil ou nos Estados Unidos, a respeito do que fazem seus países em locais distantes como o Haiti ou o Iraque, qualquer que sejam as diferenças, motivações ou circunstâncias ?
Absolutamente nenhuma diferença : é a mesma "fria", repetem.
O que há de diferente no que constatam analistas políticos ou intelectuais, no Brasil ou nos Estados Unidos, a respeito do que fazem seus países em locais distantes como o Haiti ou o Iraque, qualquer que sejam as diferenças, motivações ou circunstâncias ?
Absolutamente nenhuma diferença : é a mesma "fria", repetem.
28 dezembro 2004
27 dezembro 2004
Rotina sem fim ?
Murilo Galvão
Rotinas têm fim. Será que esta, não ?
Abelardo e Jurema formavam um casal perfeito. De início, Ju para cá, Bel para lá. Amorzinho, coração, queridinho, meu anjo, fôfo, gato, gata e outros carinhos mais cortavam o silêncio do pequeno apartamento de fundos.
Uma ano se passou de pura felicidade. A sogra, sempre presente e cada vez mais avassaladora, partilhava aqueles momentos.
Não houve como evitar. Combinaram que cada um deveria ter duas horas só para sí, tempo para pensar, jogar aquela pelada com os amigos, ir a um cinema com as amigas.
No início, ainda se escutava no apartamento dos fundos :
- Vim mais cedo ... O filme estava tão chato ... Tava com saudade ....
- Não aguento mais aquelas discussõs de final de jogo. Prefiro sair antes e ficar lhe esperando aqui ....
- Que bom te encontrar em casa, bem ....
Dois, três meses após, os carinhos já não eram os mesmos :
- Pô, não demorei tanto assim ... Foram só umas três cervejas ...
- Será que você não pode esperar um pouco ? Fui à casa de Teresa ver suas fotos na Bahia ...
E a vida seguia tranqüila na vida de Abelardo e Jurema. O silêncio no apartamento dos fundos aumentava, não fosse o tagarelar da sogra prestativa.
E veio o primeiro bebê. As duas horas "privée" de um foram tomadas pelo outro para não serem perdidas. As partidas de futebol passaram a ter quatro tempos de quarenta e cinco minutos. As cervejas pareciam não ter fim.
Depois vieram as tardes de domingo, no Maracanã, ou as manhãs na praia com amigos do trabalho.
- Preciso relaxar, dizia Abelardo para uma Jurema já em trombas.
A mãe, ainda presente, tornara-se a "baby-sitter" favorita e agora constante.
No apartamento dos fundos, a chegada em casa agora era saudada com um simples "oi", sem um simples desvio do olhar fixo na televisão, qualquer hora do dia ou da noite. Comida agora só fria.
Não durou muito o "oi" desapareceu e as entradas sem hora eram quase ignoradas. Pura rotina naquele apartamento dos fundos.
Os happy-hour após o trabalho se sucediam, quartas e sextas-feiras. O grupo era o mesmo de sempre, colegas de trabalho.
Foi assim até que um dia, deixando a porta do bar, nas despedidas de rotina, Abelardo voltou a ouvir:
- Tchau, coração. Te vejo amanhã.
Por uns segundos, Abelardo tremeu e viajou nas lembranças.
Meses depois, agora numa pequena casa de subúrbio, Bel voltou à antiga rotina, aquela que parece não ter fim.
Rotinas têm fim. Será que esta, não ?
Abelardo e Jurema formavam um casal perfeito. De início, Ju para cá, Bel para lá. Amorzinho, coração, queridinho, meu anjo, fôfo, gato, gata e outros carinhos mais cortavam o silêncio do pequeno apartamento de fundos.
Uma ano se passou de pura felicidade. A sogra, sempre presente e cada vez mais avassaladora, partilhava aqueles momentos.
Não houve como evitar. Combinaram que cada um deveria ter duas horas só para sí, tempo para pensar, jogar aquela pelada com os amigos, ir a um cinema com as amigas.
No início, ainda se escutava no apartamento dos fundos :
- Vim mais cedo ... O filme estava tão chato ... Tava com saudade ....
- Não aguento mais aquelas discussõs de final de jogo. Prefiro sair antes e ficar lhe esperando aqui ....
- Que bom te encontrar em casa, bem ....
Dois, três meses após, os carinhos já não eram os mesmos :
- Pô, não demorei tanto assim ... Foram só umas três cervejas ...
- Será que você não pode esperar um pouco ? Fui à casa de Teresa ver suas fotos na Bahia ...
E a vida seguia tranqüila na vida de Abelardo e Jurema. O silêncio no apartamento dos fundos aumentava, não fosse o tagarelar da sogra prestativa.
E veio o primeiro bebê. As duas horas "privée" de um foram tomadas pelo outro para não serem perdidas. As partidas de futebol passaram a ter quatro tempos de quarenta e cinco minutos. As cervejas pareciam não ter fim.
Depois vieram as tardes de domingo, no Maracanã, ou as manhãs na praia com amigos do trabalho.
- Preciso relaxar, dizia Abelardo para uma Jurema já em trombas.
A mãe, ainda presente, tornara-se a "baby-sitter" favorita e agora constante.
No apartamento dos fundos, a chegada em casa agora era saudada com um simples "oi", sem um simples desvio do olhar fixo na televisão, qualquer hora do dia ou da noite. Comida agora só fria.
Não durou muito o "oi" desapareceu e as entradas sem hora eram quase ignoradas. Pura rotina naquele apartamento dos fundos.
Os happy-hour após o trabalho se sucediam, quartas e sextas-feiras. O grupo era o mesmo de sempre, colegas de trabalho.
Foi assim até que um dia, deixando a porta do bar, nas despedidas de rotina, Abelardo voltou a ouvir:
- Tchau, coração. Te vejo amanhã.
Por uns segundos, Abelardo tremeu e viajou nas lembranças.
Meses depois, agora numa pequena casa de subúrbio, Bel voltou à antiga rotina, aquela que parece não ter fim.
26 dezembro 2004
Boris e Natasha
Murilo Galvão
Natasha, magra, esbelta, porte atlético, era daquele tipo de robô que despertava suspiros masculinos e inveja das companheiras de trabalho. Russa de origem, dois anos antes disputara uma competição internacional e desbancara, com folga, suas concorrentes norte-americanas, alemãs e japonesas.
Boris também era de porte invejável. Mais invejável ainda era sua inteligência. Na fábrica onde trabalhava era sempre o escolhido para as tarefas mais complexas. Verdadeiro gênio, conforme comentavam seus chefes. Projetado no Japão, acabara clonado na Rússia. Orgulho para todos.
Boris e Natasha já vinham casados há mais de três anos. A rotina das fábricas e da vida conjugal já estava começando a incomoda-los e, por isto, resolveram produzir um primeiro descendente. Depois de algumas discussões, entre preservar a beleza e a agilidade da mãe ou a genialidade do pai, optaram pelo segundo.
E alí estava Natasha, há quase duas horas aguardando notícias na sala de espera daquela maternidade de subúrbio. Boris havia entrado para o laboratório de cirurgias esperando que tudo estivesse concluído em pouco mais de meia-hora. Havia feito todos os testes possíveis. Não havia o que dar errado, garantiam os médicos-cientistas.
E Natasha cada vez mais nervosa, quando a porta automática se abre e entra uma robô-enfermeira. Percebeu logo Natasha que algo não ia bem.
- E então ? Nasceu meu robozinho ?, não se conteve. Como está Boris ?
- Tudo bem com Boris, não se preocupe - responde com foz fria a enfermeira. Com o robozinho é que tivemos um probleminha mas não se preocupe, tudo vai ficar bem ...
- O que houve ? Onde está êle ?, perguntou ainda mais ansiosa. Quero vê-lo ....
- Calma. Foi só um problema nas partes motoras inferiores mas os cientistas já resolveram isto.
-Sim, sim, e o resto tudo bem ? Onde está êle ?
- Calma, já disse. Espere mais um pouco que vamos trazê-lo para você. Boris está muito feliz, lá dentro ...
- Então vamos ...
- Outra coisa que preciso lhe informar, as garras motoras superioras também apresentaram problemas. Preciso voltar para ver se já resolveram isto ...
- Está bem, já sei ... Agora quero ver o meu robozinho !
O telefone toca e após rápida conversa, diz a enfermeira:
- Natasha, mais um pequeno problema. Talvez seu robozinho não tenha saído como vocês esperavam ...
- O que foi mais ?
- É que seus sistemas audio e visual estão comprometidos .....
- Chega, já não aguento mais .... Preciso ver meu Igorzinho ! Igor vai ser seu nome, sabia ?
- Acalme-se, já disse. Fique tranquila que já trago o Igor para você.
E lá se foi a enfermeira, deslizando pelo corredor impecavelmente branco.
Quinze minutos após, abre-se novamente a porta da sala de espera e entra um outro enfermeiro, ainda com seu macacão branco e meia máscara cobrindo o rosto metálico. Em suas mãos de robô uma enorme bandeja e, sobre ela, uma também enorme orelha.
- Natasha ?
- Sim, sou eu ...
- Seu robozinho. Pode vê-lo por uns minutos pois terá que voltar ao laboratório para ser incubado mais um pouco. Fique com ele que já volto ...
E Natasha, com todo o carinho e ainda trêmula, pega a enorme bandeja com a enorme orelha e comovida só consegue falar :
- Meu Igor, meu Igorzinho ...
O robô-enfermeiro que já ia saindo pela enorme porta automática ainda teve tempo para girar o sensor superior e dizer a Natasha :
- Senhora, fala mais alto que êle é surdo !
(nova versão de piada antiga)
Natasha, magra, esbelta, porte atlético, era daquele tipo de robô que despertava suspiros masculinos e inveja das companheiras de trabalho. Russa de origem, dois anos antes disputara uma competição internacional e desbancara, com folga, suas concorrentes norte-americanas, alemãs e japonesas.
Boris também era de porte invejável. Mais invejável ainda era sua inteligência. Na fábrica onde trabalhava era sempre o escolhido para as tarefas mais complexas. Verdadeiro gênio, conforme comentavam seus chefes. Projetado no Japão, acabara clonado na Rússia. Orgulho para todos.
Boris e Natasha já vinham casados há mais de três anos. A rotina das fábricas e da vida conjugal já estava começando a incomoda-los e, por isto, resolveram produzir um primeiro descendente. Depois de algumas discussões, entre preservar a beleza e a agilidade da mãe ou a genialidade do pai, optaram pelo segundo.
E alí estava Natasha, há quase duas horas aguardando notícias na sala de espera daquela maternidade de subúrbio. Boris havia entrado para o laboratório de cirurgias esperando que tudo estivesse concluído em pouco mais de meia-hora. Havia feito todos os testes possíveis. Não havia o que dar errado, garantiam os médicos-cientistas.
E Natasha cada vez mais nervosa, quando a porta automática se abre e entra uma robô-enfermeira. Percebeu logo Natasha que algo não ia bem.
- E então ? Nasceu meu robozinho ?, não se conteve. Como está Boris ?
- Tudo bem com Boris, não se preocupe - responde com foz fria a enfermeira. Com o robozinho é que tivemos um probleminha mas não se preocupe, tudo vai ficar bem ...
- O que houve ? Onde está êle ?, perguntou ainda mais ansiosa. Quero vê-lo ....
- Calma. Foi só um problema nas partes motoras inferiores mas os cientistas já resolveram isto.
-Sim, sim, e o resto tudo bem ? Onde está êle ?
- Calma, já disse. Espere mais um pouco que vamos trazê-lo para você. Boris está muito feliz, lá dentro ...
- Então vamos ...
- Outra coisa que preciso lhe informar, as garras motoras superioras também apresentaram problemas. Preciso voltar para ver se já resolveram isto ...
- Está bem, já sei ... Agora quero ver o meu robozinho !
O telefone toca e após rápida conversa, diz a enfermeira:
- Natasha, mais um pequeno problema. Talvez seu robozinho não tenha saído como vocês esperavam ...
- O que foi mais ?
- É que seus sistemas audio e visual estão comprometidos .....
- Chega, já não aguento mais .... Preciso ver meu Igorzinho ! Igor vai ser seu nome, sabia ?
- Acalme-se, já disse. Fique tranquila que já trago o Igor para você.
E lá se foi a enfermeira, deslizando pelo corredor impecavelmente branco.
Quinze minutos após, abre-se novamente a porta da sala de espera e entra um outro enfermeiro, ainda com seu macacão branco e meia máscara cobrindo o rosto metálico. Em suas mãos de robô uma enorme bandeja e, sobre ela, uma também enorme orelha.
- Natasha ?
- Sim, sou eu ...
- Seu robozinho. Pode vê-lo por uns minutos pois terá que voltar ao laboratório para ser incubado mais um pouco. Fique com ele que já volto ...
E Natasha, com todo o carinho e ainda trêmula, pega a enorme bandeja com a enorme orelha e comovida só consegue falar :
- Meu Igor, meu Igorzinho ...
O robô-enfermeiro que já ia saindo pela enorme porta automática ainda teve tempo para girar o sensor superior e dizer a Natasha :
- Senhora, fala mais alto que êle é surdo !
(nova versão de piada antiga)
24 dezembro 2004
23 dezembro 2004
E Deus Criou a Mulher
Murilo Galvão
Era aquele tipo comum de rua de subúrbio carioca nos anos 50. Curta, sem calçadas e pavimento, esburacada, ligeiramente em declive, muito larga, com casas e alguns terrenos baldios dos seus dois lados. Formava o travessão de um H, espremida entre duas outras, maiores : uma grande escadaria de um lado, uma quase avenida do outro. Com única entrada, sem transito, com exceção de um ou dois carros de moradores mais abastados.
Algumas árvores e muito capim, tudo formando um perfeito cenário para a alegria e diversão da garotada que morava e brincava naquele canto. Era mais uma das gangs da época, as “turmas”, ainda inocentes , puras e ciosas de seu espaço, verdadeiros guerreiros que se armavam de paus e pedras quando precisavam enfrentar a “turma” da rua tal.
Jiminho, Mauricí, Janjão, Teresa, Lúcia, Pedrinho, Daniel, Tania, Jussara, Hélcio foram alguns dos personagens de um elenco maior de peça inesquecível.
Pique, ciranda, anel, amarelinha eram as brincadeiras prediletas, próprias para se mostrar à plateia atenta dos pais vigilantes, debruçados sobre as janelas de nossas casas. O eterno futebol, jogado uma vez por ano – normalmente após o Natal - com bola de couro e, sempre e a toda hora, com arremedos de bolas, feitas com meias velhas e recheadas com jornais ou trapos. O pique-esconde noturno onde os primeiros namoros aconteceram e os primeiros beijinhos foram roubados. O soltar pipas, vício maior a azucrinar a vida dos pais a chamar para os devidos estudos. O “voyeurismo” combinado, onde os primeiros strips foram ensaiados pelas meninas, para deleite dos meninos, atentos às janelas abertas, em cima de muros ou goiabeiras. Os momentos fugidos em alguma sala ou quarto, pais ausentes, onde os primeiros toques fisicos e sexuais aconteceram. Todos, momentos de muitas lembranças, pedindo mais tempo e espaço para serem narrados.
Entre tantas aventuras perigosas e brincadeiras inocentes, espaço e tempo para longas conversas, normalmente sob uma mangueira, na casa de um ou sob uma frondosa cajazeira que espalhava seus galhos por sobre o muro de alguém e alcançava parte da rua. E junto ao poste que também servia para marcar uma das traves do futebol diário é que sentávamos em rodinha para a maioria de nossas conversas.
Foi numa daquelas noites, junto ao poste e debaixo da cajazeira, que lá estávamos quando se juntou a nós, Carlos, de presença pouco frequente pela maior idade, quatro ou cinco anos mais velho que os demais. Acabava de vir do cinema e o assunto não poderia ter sido outro a partir daquele momento.
Vira, burlando o bilheteiro de algum cinema distante, “E Deus Criou a Mulher”, sensação do momento, comentado nos jornais e por toda a parte, conversa de jantar entre os mais velhos. O mundo não era mais o mesmo. Uma francesa, só podia ser – diziam, ousava, na tela, apresentar-se nua e em sequências de cenas picantes. Pura “sem-vergonhice”, pois ainda não era moda o termo “pornografia”.
E nós alí, mudos, engolindo em seco, escondendo o sexo infantil já excitado, ouvindo a narração detalhada de Carlos.
Até então, tinham sido só algumas poucas revistas em quadrinhos, suecas ou norueguesas, exibindo desenhos eróticos ou fotografias de louras, nem sempre esbeltas como as de hoje, mostrando seios, pernas e bundas fartas. Para deleite maior da imaginação, havia ainda uns poucos “romances” de Cassandra Rios; o best-seller, “Éramos Três”, já havia sido lido e relido por todos, rodando de mão em mão.
Pois agora podia ser no cinema. Cenas vivas, personagens vivos, acompanhados no escuro. Problema era a idade que ainda nos afastava daquele prazer, tão barato de ser obtido.
E a narração prosseguia. Certamente naquela noite ninguém terá dormido de imediato e os sonhos de todos nós, alí, terão sido muito doces. Tenho certeza.
A cena do banho ficou então marcada em mim para sempre. Brigite Bardot, a musa daqueles anos, lábios carnudos, sexy, quase ninfeta como Lúcia, Tânia, Vera e outras entre nós, saindo do banho naquele roupão branco e maravilhoso.
Naquele momento, dava para sentir o perfume que ela usava.
E a câmera focalizando em close seus lábios em sorriso malicioso, afastando o zoom ao mesmo tempo em que ela afastava as abas do roupão que escondia seu corpo ainda molhado. Primeiro os seios, o ventre e, por fim, o sexo, puro, ao vivo e alí para ser comido com os olhos ou pela nossa imaginação naquele momento.
Quanto tempo durou a cena na tela nunca pude saber ao certo. Para mim, durou a eternidade pois persiste até hoje.
Por muitos anos procurei, instintivamente, por aquele filme sendo reprisado em algum lugar da cidade. Os anos passaram, nenhum cine-clube, nenhum vídeo, Internet, nada. A vida se passando e um sonho se esvaindo.
E foi quando, cerca de dois meses atrás, ligo a TV, rotina despretensiosa de todo início de noite na vida reclusa da serra. Surfando sobre o controle remoto, deparo-me com Brigitte, a mesma Bardot das velhas lembranças. Congelo. Duas cenas e me convenço de que, finalmente, saberia como Deus Criou a Mulher. Era o filme esperado há mais de quarenta anos, alí, na minha frente, no silêncio da casa e no escuro da quase-noite. Quase tudo igual ao cinema que nunca pude ir.
Mal me acomodo no sofá, olho grudado na tela, percebo que eram os momentos finais do filme. BB dança maliciosamente, mas totalmente vestida, sobre uma mesa para os que, percebo, são seus dois amantes. Mais duas tomadas e o filme acaba.
Frustração total.
Havia perdido a cena do banho.
Era aquele tipo comum de rua de subúrbio carioca nos anos 50. Curta, sem calçadas e pavimento, esburacada, ligeiramente em declive, muito larga, com casas e alguns terrenos baldios dos seus dois lados. Formava o travessão de um H, espremida entre duas outras, maiores : uma grande escadaria de um lado, uma quase avenida do outro. Com única entrada, sem transito, com exceção de um ou dois carros de moradores mais abastados.
Algumas árvores e muito capim, tudo formando um perfeito cenário para a alegria e diversão da garotada que morava e brincava naquele canto. Era mais uma das gangs da época, as “turmas”, ainda inocentes , puras e ciosas de seu espaço, verdadeiros guerreiros que se armavam de paus e pedras quando precisavam enfrentar a “turma” da rua tal.
Jiminho, Mauricí, Janjão, Teresa, Lúcia, Pedrinho, Daniel, Tania, Jussara, Hélcio foram alguns dos personagens de um elenco maior de peça inesquecível.
Pique, ciranda, anel, amarelinha eram as brincadeiras prediletas, próprias para se mostrar à plateia atenta dos pais vigilantes, debruçados sobre as janelas de nossas casas. O eterno futebol, jogado uma vez por ano – normalmente após o Natal - com bola de couro e, sempre e a toda hora, com arremedos de bolas, feitas com meias velhas e recheadas com jornais ou trapos. O pique-esconde noturno onde os primeiros namoros aconteceram e os primeiros beijinhos foram roubados. O soltar pipas, vício maior a azucrinar a vida dos pais a chamar para os devidos estudos. O “voyeurismo” combinado, onde os primeiros strips foram ensaiados pelas meninas, para deleite dos meninos, atentos às janelas abertas, em cima de muros ou goiabeiras. Os momentos fugidos em alguma sala ou quarto, pais ausentes, onde os primeiros toques fisicos e sexuais aconteceram. Todos, momentos de muitas lembranças, pedindo mais tempo e espaço para serem narrados.
Entre tantas aventuras perigosas e brincadeiras inocentes, espaço e tempo para longas conversas, normalmente sob uma mangueira, na casa de um ou sob uma frondosa cajazeira que espalhava seus galhos por sobre o muro de alguém e alcançava parte da rua. E junto ao poste que também servia para marcar uma das traves do futebol diário é que sentávamos em rodinha para a maioria de nossas conversas.
Foi numa daquelas noites, junto ao poste e debaixo da cajazeira, que lá estávamos quando se juntou a nós, Carlos, de presença pouco frequente pela maior idade, quatro ou cinco anos mais velho que os demais. Acabava de vir do cinema e o assunto não poderia ter sido outro a partir daquele momento.
Vira, burlando o bilheteiro de algum cinema distante, “E Deus Criou a Mulher”, sensação do momento, comentado nos jornais e por toda a parte, conversa de jantar entre os mais velhos. O mundo não era mais o mesmo. Uma francesa, só podia ser – diziam, ousava, na tela, apresentar-se nua e em sequências de cenas picantes. Pura “sem-vergonhice”, pois ainda não era moda o termo “pornografia”.
E nós alí, mudos, engolindo em seco, escondendo o sexo infantil já excitado, ouvindo a narração detalhada de Carlos.
Até então, tinham sido só algumas poucas revistas em quadrinhos, suecas ou norueguesas, exibindo desenhos eróticos ou fotografias de louras, nem sempre esbeltas como as de hoje, mostrando seios, pernas e bundas fartas. Para deleite maior da imaginação, havia ainda uns poucos “romances” de Cassandra Rios; o best-seller, “Éramos Três”, já havia sido lido e relido por todos, rodando de mão em mão.
Pois agora podia ser no cinema. Cenas vivas, personagens vivos, acompanhados no escuro. Problema era a idade que ainda nos afastava daquele prazer, tão barato de ser obtido.
E a narração prosseguia. Certamente naquela noite ninguém terá dormido de imediato e os sonhos de todos nós, alí, terão sido muito doces. Tenho certeza.
A cena do banho ficou então marcada em mim para sempre. Brigite Bardot, a musa daqueles anos, lábios carnudos, sexy, quase ninfeta como Lúcia, Tânia, Vera e outras entre nós, saindo do banho naquele roupão branco e maravilhoso.
Naquele momento, dava para sentir o perfume que ela usava.
E a câmera focalizando em close seus lábios em sorriso malicioso, afastando o zoom ao mesmo tempo em que ela afastava as abas do roupão que escondia seu corpo ainda molhado. Primeiro os seios, o ventre e, por fim, o sexo, puro, ao vivo e alí para ser comido com os olhos ou pela nossa imaginação naquele momento.
Quanto tempo durou a cena na tela nunca pude saber ao certo. Para mim, durou a eternidade pois persiste até hoje.
Por muitos anos procurei, instintivamente, por aquele filme sendo reprisado em algum lugar da cidade. Os anos passaram, nenhum cine-clube, nenhum vídeo, Internet, nada. A vida se passando e um sonho se esvaindo.
E foi quando, cerca de dois meses atrás, ligo a TV, rotina despretensiosa de todo início de noite na vida reclusa da serra. Surfando sobre o controle remoto, deparo-me com Brigitte, a mesma Bardot das velhas lembranças. Congelo. Duas cenas e me convenço de que, finalmente, saberia como Deus Criou a Mulher. Era o filme esperado há mais de quarenta anos, alí, na minha frente, no silêncio da casa e no escuro da quase-noite. Quase tudo igual ao cinema que nunca pude ir.
Mal me acomodo no sofá, olho grudado na tela, percebo que eram os momentos finais do filme. BB dança maliciosamente, mas totalmente vestida, sobre uma mesa para os que, percebo, são seus dois amantes. Mais duas tomadas e o filme acaba.
Frustração total.
Havia perdido a cena do banho.
Presente de Natal
Alguns presentes de Natal vêm com sabor especial. Este, por exemplo, não foi dado, ainda. Foi alcançado. Veio com muita dedicação e persistência, fruto do trabalho de quem acredita em sua idéias. O livro é o primeiro lançamento da EDITORA FORMA & AÇÃO. Grande iniciativa. Belo presente ! Sucesso aos editores ! No mais, vamos comer à vontade neste final de ano pois a forma será garantida.
22 dezembro 2004
Falando de Natal
Álvaro Melo, Rio de Janeiro
Alguns acham chatíssimo falar em Natal nessa época. Ué, vamos falar de Natal quando? Talvez seja uma época que mais me traz reminiscências da infância. Ceávamos no dia 24, mas os presentes só chegavam durante a noite, depois que íamos dormir.
Eu disse dormir? Viajei... Era apenas um estado letárgico, provocado pelo cansaço do dia e a espera da ceia, cheio de cortes abruptos entre consciência e inconsciência onde ouvíamos eventuais passos furtivos do Papai Noel que não satisfeito em depositar presentes abria geladeira e mexia em armários (nada como conhecer os sons da própria casa...).
Essa noite torturante geralmente acabava encurtada, pois antes do sol nascer a insônia ansiosa me tirava da cama e quando os outros se levantavam, por mais cedo que fosse já me encontravam à postos, sentado no chão ao lado dos presentes, os quais já devidamente apalpados, cheirados e, às vezes, adivinhados.
A juventude adolescente matou esse encanto e o Natal passou a ser um momento de comidas raras e gostosas, presentes utilitários e eventuais visitas de parentes e outros chatos aos quais tínhamos que dar atenção, preterindo nossas intenções de encontrar a turma para as programações peculiares à tribo-época-idade.
Depois do casamento o sentido familiar do Natal volta a ser realçado. Fazer dos filhos o espelho da infância é normal e natural, a menos que a infância não seja fonte de boas recordações...
Com o passar do tempo a família se amplia: mais filhos, primos, e damos conta da inevitável divisão entre família dela e família dele. Muitas vezes sem o menor stress, mas sempre requerendo habilidade e diplomacia para não criar “climas” e situações tipo “saia justa”.
O passar do tempo deixa experiência em troca de juventude e os Natais vão se alternando entre melancólicos e alegres, dependendo do que aquele ano tenha trazido ou levado. Mas a experiência que vai crescendo e se aprofundando mais fortemente é aquela de que se trata de um momento raro e felizes são aqueles que têm família e o que comemorar ou recordar. Não é hora de ressuscitar velhas rivalidades, remoer mágoas antigas, nem aproveitar o momento para exibições que não tenham o senso comum. Também não é hora para reparar se um trouxe mais e outro menos, a despeito de situações financeiras inversas. As pessoas são como são e cada um dá de si o que julga correto ou suficiente. O importante somos nós, individualmente, e a nossa consciência. O importante é ter prazer naquilo e proporciona-lo com a mesma intensidade. O importante é não se tornar credor do Natal e sim doador. O empréstimo, mesmo que em sentido figurado, gera cobranças e expectativas ansiosas. A doação eleva, aplaca e serena.
Pois é, comecei no burlesco e acabei falando sério. Deve ser o espírito do Natal se manifestando através deste que pretende ser apenas um filósofo barato, de botequim. Etílico-barato-filosofia é um credo de alto risco para portadores de diabete, e assim posso me sentir equiparado aos praticantes de esportes radicais aos quais saúdo com o copo que estiver à mão e o conteúdo que couber à ocasião.
Saúde e paz!
Feliz Natal!
Alguns acham chatíssimo falar em Natal nessa época. Ué, vamos falar de Natal quando? Talvez seja uma época que mais me traz reminiscências da infância. Ceávamos no dia 24, mas os presentes só chegavam durante a noite, depois que íamos dormir.
Eu disse dormir? Viajei... Era apenas um estado letárgico, provocado pelo cansaço do dia e a espera da ceia, cheio de cortes abruptos entre consciência e inconsciência onde ouvíamos eventuais passos furtivos do Papai Noel que não satisfeito em depositar presentes abria geladeira e mexia em armários (nada como conhecer os sons da própria casa...).
Essa noite torturante geralmente acabava encurtada, pois antes do sol nascer a insônia ansiosa me tirava da cama e quando os outros se levantavam, por mais cedo que fosse já me encontravam à postos, sentado no chão ao lado dos presentes, os quais já devidamente apalpados, cheirados e, às vezes, adivinhados.
A juventude adolescente matou esse encanto e o Natal passou a ser um momento de comidas raras e gostosas, presentes utilitários e eventuais visitas de parentes e outros chatos aos quais tínhamos que dar atenção, preterindo nossas intenções de encontrar a turma para as programações peculiares à tribo-época-idade.
Depois do casamento o sentido familiar do Natal volta a ser realçado. Fazer dos filhos o espelho da infância é normal e natural, a menos que a infância não seja fonte de boas recordações...
Com o passar do tempo a família se amplia: mais filhos, primos, e damos conta da inevitável divisão entre família dela e família dele. Muitas vezes sem o menor stress, mas sempre requerendo habilidade e diplomacia para não criar “climas” e situações tipo “saia justa”.
O passar do tempo deixa experiência em troca de juventude e os Natais vão se alternando entre melancólicos e alegres, dependendo do que aquele ano tenha trazido ou levado. Mas a experiência que vai crescendo e se aprofundando mais fortemente é aquela de que se trata de um momento raro e felizes são aqueles que têm família e o que comemorar ou recordar. Não é hora de ressuscitar velhas rivalidades, remoer mágoas antigas, nem aproveitar o momento para exibições que não tenham o senso comum. Também não é hora para reparar se um trouxe mais e outro menos, a despeito de situações financeiras inversas. As pessoas são como são e cada um dá de si o que julga correto ou suficiente. O importante somos nós, individualmente, e a nossa consciência. O importante é ter prazer naquilo e proporciona-lo com a mesma intensidade. O importante é não se tornar credor do Natal e sim doador. O empréstimo, mesmo que em sentido figurado, gera cobranças e expectativas ansiosas. A doação eleva, aplaca e serena.
Pois é, comecei no burlesco e acabei falando sério. Deve ser o espírito do Natal se manifestando através deste que pretende ser apenas um filósofo barato, de botequim. Etílico-barato-filosofia é um credo de alto risco para portadores de diabete, e assim posso me sentir equiparado aos praticantes de esportes radicais aos quais saúdo com o copo que estiver à mão e o conteúdo que couber à ocasião.
Saúde e paz!
Feliz Natal!
21 dezembro 2004
20 dezembro 2004
Enigma das inquietudes
Murilo Galvão
No hamburger, busco imagens e semelhanças.
Encontro nas formas, com diferentes intensidades. O silêncio de antes se transforma no canto triste de hoje.
O coração fica pequeno e a noite mais longa. Lá fora, cai a neve fria.
No hamburger, busco imagens e semelhanças.
Encontro nas formas, com diferentes intensidades. O silêncio de antes se transforma no canto triste de hoje.
O coração fica pequeno e a noite mais longa. Lá fora, cai a neve fria.
19 dezembro 2004
O primeiro banho (russo)
Murilo Galvão
Do primeiro banho russo ninguém deve esquecer. Toma-se o metrô, faz-se uma baldeação, salta-se na estação que parece igual às demais, caminha-se uns dois quarteirões e você está em frente ao prédio de tijolinhos que, também igual aos demais, exibe no alto : "Russian and Turkish Spa. Since 1892".
Sobe-se alguns degráus e uma pesada porta se abre para um pequeno lobby à direita e um bar à esquerda. De russo, muito pouco; dá para lembrar de uma lanchonete de terceira em algum clube de segunda, no Rio ou em São Paulo.
Descarta-se dos documentos e pertences, deixados em pequenas gavetas. Imagino se James Bond ou outros agentes terão deixado alí suas pistolas, afinal, saunas devem ser ótimos lugares para se conhecer segredos ...
No caminho do vestiário, pelo corredor, já a primeira visão dos tipos mais recheados em busca das linhas perdidas.
O vestiário, conjunto de camas, colchonetes e armários velhos, como nos meus tempos de internato. Dois ou três clientes, semi-nús, dormindo.
Já com o uniforme apropriado, jaleco à UTI de hospital, limpo porém poído, chega-se ao momento de entrada na arena quente.
Realmente, muito quente, coisa para russo mandado à Sibéria. Por sorte, três largos e altos degráus dos quais, no mais baixo, pode-se suportar o calor. O salão, relativamente grande, de uma simplicidade de incomodar. Piso de cimento fazendo lembrar calçadas de Rio das Pedras. Um ralo, ao centro, escoando toda a água lançada, ligeiramente entupido por folhas, dizem que de eucalípto.
É que, de dois em dois metros, uma bica sem sequer torneira, jorrando água gelada. Sob cada uma delas, um balde de plástico, nada diferente daqueles de lava-jato barato. No meio da sessão de calor, a cada dois ou três minutos, lança-se sobre o corpo fumegante aquele líquido congelante. Prazer besta, diria meu pai, bom baiano.
Sobre os bancos-degráus, pranchas finas de madeira dão o tom do conforto. No canto esquerdo, enorme e fechada, a caldeira de pedra. Paredes e arquibancadas em cimento com toda a brita aparente. Tudo simples, tosco e mal-acabado.
E a sessão continua : muito calor e duchas de baldes de água gelada.
No degráu superior deita-se, de bruços e sobre uma toalha, alguém mais avantajado no peso. Chega mais algúem para perto, pelo degráu de baixo, trazendo um enorme balde coberto de espuma. Não há como evitar, novamente, a lembrança do lava-jato.
Inicialmente, uma camada de espuma é jogada sobre o corpo. Imagino que seja uma massagem. As mãos do profissional iniciam seu trabalho. O calção do massageado é colocado, literalmente, a meio-pau (ou meia bunda, para ser mais exato, pela sua posição deitado). Do balde sai então o que, não tivesse perguntado antes sobre as folhas no chão, pensaria ser um esfregão. Com o ramo-esfregão, uma série de chicotadas sobre o corpo estendido. Novas massagens, mais espuma e o momento do susto : o profissional resolve montar sobre o tipo, naquela posição conhecida também fora da Rússia. Cabeça latina, penso logo, vai ser agora, ao vivo, com platéia e tudo .... Nada. Simples técnica russa e ninguém parece observar. E por aí segue-se a massagem, entre baldes frios, carícias profissionais pelas costas e chicotadas para ativar a circulação do coitado.
Entra um casal conversando em Espanhol. Ele, atlético, de rabo de cavalo à la jogador argentino. Ela, tipo comum. Iniciam, descontraídos, uma sessão de alongamento, yoga ou de algum "-tsu" da moda.
Na saída, após os primeiros quinze minutos recomendados, a expectativa pelo novo ato anunciado : uma pequena piscina, quase um tanque, com água previamente gelada em alguma serpentina. Por azar, proíbido mergulhar, talvez para aumentar o sofrimento da experiência polar. Depois da primeira imersão vertical, uma segunda torna-se convidativa. Rapidamente, pois que em não mais que três minutos deve-se sair dalí sob pena de sei lá o que, virar picolé.
Nos corredores, bancos de madeira com meia dúzia de pessoas, "descansando".
Nova sessão de quinze minutos com o mesmo ritual de antes. No mesmo degráu superior uma mulher prepara-se para ser massageada, só que pelas mão do marido, sem espuma, chibatadas e técnica. Rosto virado para a parede, não percebe que um balde ameaçador se aproxima de suas costas. O grito seria inevitável e foi o que aconteceu. Surpresa maior para o marido que, desconsertado, inicia uma "bronca" mas que, olhando ao redor como se pego em delito ou buscando reprimendas, para de imediato. Observo que todos permanecem imóveis e sem esboçar qualquer surpresa ou reação pelo grito alucinante. Não pude evitar o sorriso de cumplicidade e complacência dado ao marido assustado. Acho que foi o bastante para acalmar seu semblante. Me retribuiu o sorriso e pareceu despreocupar-se. A mulher, sei lá como, já havia partido porta afora.
Mais duas imersões no caldo gelado, caminho de volta ao vestiário.
Na saída, na lanchonete caída, uma cerveja russa, não muito gelada, para a reidratação necessária.
Já na rua, deixa-se para trás quase cem reais de despesa e a experiência de uma sauna russa que não se modifica desde 1892.
Do primeiro banho russo ninguém deve esquecer. Toma-se o metrô, faz-se uma baldeação, salta-se na estação que parece igual às demais, caminha-se uns dois quarteirões e você está em frente ao prédio de tijolinhos que, também igual aos demais, exibe no alto : "Russian and Turkish Spa. Since 1892".
Sobe-se alguns degráus e uma pesada porta se abre para um pequeno lobby à direita e um bar à esquerda. De russo, muito pouco; dá para lembrar de uma lanchonete de terceira em algum clube de segunda, no Rio ou em São Paulo.
Descarta-se dos documentos e pertences, deixados em pequenas gavetas. Imagino se James Bond ou outros agentes terão deixado alí suas pistolas, afinal, saunas devem ser ótimos lugares para se conhecer segredos ...
No caminho do vestiário, pelo corredor, já a primeira visão dos tipos mais recheados em busca das linhas perdidas.
O vestiário, conjunto de camas, colchonetes e armários velhos, como nos meus tempos de internato. Dois ou três clientes, semi-nús, dormindo.
Já com o uniforme apropriado, jaleco à UTI de hospital, limpo porém poído, chega-se ao momento de entrada na arena quente.
Realmente, muito quente, coisa para russo mandado à Sibéria. Por sorte, três largos e altos degráus dos quais, no mais baixo, pode-se suportar o calor. O salão, relativamente grande, de uma simplicidade de incomodar. Piso de cimento fazendo lembrar calçadas de Rio das Pedras. Um ralo, ao centro, escoando toda a água lançada, ligeiramente entupido por folhas, dizem que de eucalípto.
É que, de dois em dois metros, uma bica sem sequer torneira, jorrando água gelada. Sob cada uma delas, um balde de plástico, nada diferente daqueles de lava-jato barato. No meio da sessão de calor, a cada dois ou três minutos, lança-se sobre o corpo fumegante aquele líquido congelante. Prazer besta, diria meu pai, bom baiano.
Sobre os bancos-degráus, pranchas finas de madeira dão o tom do conforto. No canto esquerdo, enorme e fechada, a caldeira de pedra. Paredes e arquibancadas em cimento com toda a brita aparente. Tudo simples, tosco e mal-acabado.
E a sessão continua : muito calor e duchas de baldes de água gelada.
No degráu superior deita-se, de bruços e sobre uma toalha, alguém mais avantajado no peso. Chega mais algúem para perto, pelo degráu de baixo, trazendo um enorme balde coberto de espuma. Não há como evitar, novamente, a lembrança do lava-jato.
Inicialmente, uma camada de espuma é jogada sobre o corpo. Imagino que seja uma massagem. As mãos do profissional iniciam seu trabalho. O calção do massageado é colocado, literalmente, a meio-pau (ou meia bunda, para ser mais exato, pela sua posição deitado). Do balde sai então o que, não tivesse perguntado antes sobre as folhas no chão, pensaria ser um esfregão. Com o ramo-esfregão, uma série de chicotadas sobre o corpo estendido. Novas massagens, mais espuma e o momento do susto : o profissional resolve montar sobre o tipo, naquela posição conhecida também fora da Rússia. Cabeça latina, penso logo, vai ser agora, ao vivo, com platéia e tudo .... Nada. Simples técnica russa e ninguém parece observar. E por aí segue-se a massagem, entre baldes frios, carícias profissionais pelas costas e chicotadas para ativar a circulação do coitado.
Entra um casal conversando em Espanhol. Ele, atlético, de rabo de cavalo à la jogador argentino. Ela, tipo comum. Iniciam, descontraídos, uma sessão de alongamento, yoga ou de algum "-tsu" da moda.
Na saída, após os primeiros quinze minutos recomendados, a expectativa pelo novo ato anunciado : uma pequena piscina, quase um tanque, com água previamente gelada em alguma serpentina. Por azar, proíbido mergulhar, talvez para aumentar o sofrimento da experiência polar. Depois da primeira imersão vertical, uma segunda torna-se convidativa. Rapidamente, pois que em não mais que três minutos deve-se sair dalí sob pena de sei lá o que, virar picolé.
Nos corredores, bancos de madeira com meia dúzia de pessoas, "descansando".
Nova sessão de quinze minutos com o mesmo ritual de antes. No mesmo degráu superior uma mulher prepara-se para ser massageada, só que pelas mão do marido, sem espuma, chibatadas e técnica. Rosto virado para a parede, não percebe que um balde ameaçador se aproxima de suas costas. O grito seria inevitável e foi o que aconteceu. Surpresa maior para o marido que, desconsertado, inicia uma "bronca" mas que, olhando ao redor como se pego em delito ou buscando reprimendas, para de imediato. Observo que todos permanecem imóveis e sem esboçar qualquer surpresa ou reação pelo grito alucinante. Não pude evitar o sorriso de cumplicidade e complacência dado ao marido assustado. Acho que foi o bastante para acalmar seu semblante. Me retribuiu o sorriso e pareceu despreocupar-se. A mulher, sei lá como, já havia partido porta afora.
Mais duas imersões no caldo gelado, caminho de volta ao vestiário.
Na saída, na lanchonete caída, uma cerveja russa, não muito gelada, para a reidratação necessária.
Já na rua, deixa-se para trás quase cem reais de despesa e a experiência de uma sauna russa que não se modifica desde 1892.
18 dezembro 2004
17 dezembro 2004
Piaçava no Park
Murilo Galvão
- Eu, de novo, Piaçava. Piaçava da Silva, lembram-se de mim ? Apesar do sobrenome, nunca gostei de viajar. Prá dizer a verdade, gostaria mesmo era de estar na minha terra. Quem sabe um dia não volto ?
Mas andei viajando novamente; desta vez, uma viagem muito diferente das outras. Não andei aos trancos, não ví poeira nem fumaça. Tudo muito tranquilo mas, em compensação, parece que me levaram dentro de uma geladeira. Que frio ! Lembro que me encolhi toda num canto e rezei muito para não virar sacolé ... Ao chegar não sei onde e nem o porquê, deram-me um banho. A água era mais gelada ainda e, pior, cheirava muito mal, como se fosse um remédio ruim.
Depois, voltei ao castigo no escuro. Afinal, que tanto faço de errado para viver destes castigos repetidos ? Pior é que o frio continuava, um pouco menos, mas ainda de matar. Nestas horas que vão se repetindo, só penso em Cajaíba. Que saudade ! Acho que acabei desmaiando alí naquele canto.
Ao acordar, pensei que haviam me levado para o céu que, por sinal, estava muito azul. O frio era menor pois um pouco de sol me alcançava. Sim, no céu, porque tudo era muito bonito para mim. Nunca havia visto nada como aquilo.
Mas logo ví que não. Um homem que nunca havia conhecido estava sentado à minha frente, segurando uma roda que às vezes girava, para um lado ou para o outro. Podia ouvir também um toc-toc que bem parecia os do trator de minha fazenda da infância. Andávamos bem devagar, o que me deixava tempo para apreciar tudo. Ao meu lado, um balde igual aos que já conhecia e outras coisas que nunca havia visto. Engraçado é que, como eu, havia alguém mais, mas suas tranças eram de metal, bem mais duras e coloridas de verde, se não me engano.
E lá íamos nós. Como disse, observava tudo com muita curiosidade e admiração. E por isto mesmo entendia menos porque estava alí naquele lugar. Tudo tão limpo, não fosse por tantas folhas espalhadas pelo chão às vêzes negro, outras de um marrom pálido. As árvores que passavam pareciam velhas, de carecas. Que teria acontecido com elas ?, pensei do fato inusitado para mim.
Tentei puxar conversa com o tipo de tranças metálicas. Depois de muito custo, conseguí entender que era final de outono, que caíam as folhas, que um dia voltariam. Explicou-me mais algumas coisas que não consegui entender. Afinal, qual seria a diferença, continuei a pensar, acostumada que fui ao verão eterno ?
Ainda pelo caminho, uma ou outra árvore em flores. Verdade seja dito : eram lindas, carecas e coloridas, muito diferentes das que, me lembro, se esparramavam sobre o manguezal em direção ao mar. Por entre as folhas, onde ainda se podia ver, a grama era raquítica, de um verde muito pálido, quase cinza.
Logo depois de uma curva encontramos um lago que logo pensei ser o mar. O coração disparou imaginando poder reencontrar um velho saveiro deslizando até sem vento. Mas não, era mesmo um lago pequeno onde brincavam, sem muita animação, uns patinhos de cores escuras.
Enquanto andávamos para não sei onde, passavam por nós umas pessoas muito estranhas, altas, louras, às vezes muito gordas, umas de terno, outras simplesmente vestidas como se fossem para alguma festa, correndo, apressadas por alguma razão. Lembro-me de haver ainda passado por um pequeno grupo. Como paramos por um instante, tive a impressão de que havia uma noiva entre eles e um ou dois homens de preto. Será que estavam casando ? Não consegui ver o padre e também, nem procurando em volta, achei a igreja. Coisa esquisita !. Desta vêz não me animei a perguntar ao meu quase clone, ao lado.
Subimos por uma pequena ponte onde crianças jogavam alguma coisa n'água. Criança é tudo igual, pensei ...
Finalmente paramos e o homem que ia à frente veio em nossa direção. Já não me imaginando no céu, pressenti o pior. Mas não, tirou tudo que estava ao meu lado, inclusive eu, e nos colocou no chão. Fiquei, novamente, ao lado do tipo estranho, o de tranças metálicas.
Comecei a ficar assustada novamente quando o homem ligou um negócio que fazia muito barulho. Ficou segurando um tubo que saía dalí e por onde fazia muito vento. Sei porque fiquei em sua frente e quase fui lançada para o alto. Com esforço, só caí no chão mas o homem veio e me pôs de pé, novamente.
Depois, nos deixou um pouco para trás e entrou numa parte do jardim, cercada por tela baixa e coberta por folhas mortas. Do tubo continuava a ventania e com ela o homem parecia espantar as folhas que voavam todas para o alto mas sempre para a frente. Podia agora ver a grama quase morta. Eu de alguma forma me divertia agora com tudo aquilo, aliviada por imaginar que aquele trabalho poderia ter sido meu. Ao meu lado, o de tranças verdes parecia não se importar com nada.
Ví então que o espetáculo das folhas voadoras não era só meu e que algumas pessoas também paravam para assistí-lo. Afinal, eram folhas que pareciam querer voltar aos seus galhos nas alturas mas que, aos poucos, iam se amontoando, ordenadamente, mais à frente.
Foi quando notei que, no grupo que se formou, alguém, um pouco à frente, me olhava de forma diferente. Não era exatamente como os outros que havia visto nesta manhã. Era mais baixo, casaco e gorro azul à cabeça. Me chamou atenção o bigode branco que tinha no rosto, muito branco, como se fosse de algodão ou do Papai Noel que conhecí um dia na infância. Ví que tentou tirar uma foto, não sei se de mim ou das folhas, mas alguma coisa deu errado pois logo desistiu.
Esquecido das folhas, continuou a olhar para mim, como se visse alguém que há muito não encontrava ou que lhe trouxesse recordações.
Já encabulada, ví ainda que ele me deu às costas e seguiu, passeando, pelos jardins do Park.
(Ao amigo Walter, pela idéia da continuação do personagem)
- Eu, de novo, Piaçava. Piaçava da Silva, lembram-se de mim ? Apesar do sobrenome, nunca gostei de viajar. Prá dizer a verdade, gostaria mesmo era de estar na minha terra. Quem sabe um dia não volto ?
Mas andei viajando novamente; desta vez, uma viagem muito diferente das outras. Não andei aos trancos, não ví poeira nem fumaça. Tudo muito tranquilo mas, em compensação, parece que me levaram dentro de uma geladeira. Que frio ! Lembro que me encolhi toda num canto e rezei muito para não virar sacolé ... Ao chegar não sei onde e nem o porquê, deram-me um banho. A água era mais gelada ainda e, pior, cheirava muito mal, como se fosse um remédio ruim.
Depois, voltei ao castigo no escuro. Afinal, que tanto faço de errado para viver destes castigos repetidos ? Pior é que o frio continuava, um pouco menos, mas ainda de matar. Nestas horas que vão se repetindo, só penso em Cajaíba. Que saudade ! Acho que acabei desmaiando alí naquele canto.
Ao acordar, pensei que haviam me levado para o céu que, por sinal, estava muito azul. O frio era menor pois um pouco de sol me alcançava. Sim, no céu, porque tudo era muito bonito para mim. Nunca havia visto nada como aquilo.
Mas logo ví que não. Um homem que nunca havia conhecido estava sentado à minha frente, segurando uma roda que às vezes girava, para um lado ou para o outro. Podia ouvir também um toc-toc que bem parecia os do trator de minha fazenda da infância. Andávamos bem devagar, o que me deixava tempo para apreciar tudo. Ao meu lado, um balde igual aos que já conhecia e outras coisas que nunca havia visto. Engraçado é que, como eu, havia alguém mais, mas suas tranças eram de metal, bem mais duras e coloridas de verde, se não me engano.
E lá íamos nós. Como disse, observava tudo com muita curiosidade e admiração. E por isto mesmo entendia menos porque estava alí naquele lugar. Tudo tão limpo, não fosse por tantas folhas espalhadas pelo chão às vêzes negro, outras de um marrom pálido. As árvores que passavam pareciam velhas, de carecas. Que teria acontecido com elas ?, pensei do fato inusitado para mim.
Tentei puxar conversa com o tipo de tranças metálicas. Depois de muito custo, conseguí entender que era final de outono, que caíam as folhas, que um dia voltariam. Explicou-me mais algumas coisas que não consegui entender. Afinal, qual seria a diferença, continuei a pensar, acostumada que fui ao verão eterno ?
Ainda pelo caminho, uma ou outra árvore em flores. Verdade seja dito : eram lindas, carecas e coloridas, muito diferentes das que, me lembro, se esparramavam sobre o manguezal em direção ao mar. Por entre as folhas, onde ainda se podia ver, a grama era raquítica, de um verde muito pálido, quase cinza.
Logo depois de uma curva encontramos um lago que logo pensei ser o mar. O coração disparou imaginando poder reencontrar um velho saveiro deslizando até sem vento. Mas não, era mesmo um lago pequeno onde brincavam, sem muita animação, uns patinhos de cores escuras.
Enquanto andávamos para não sei onde, passavam por nós umas pessoas muito estranhas, altas, louras, às vezes muito gordas, umas de terno, outras simplesmente vestidas como se fossem para alguma festa, correndo, apressadas por alguma razão. Lembro-me de haver ainda passado por um pequeno grupo. Como paramos por um instante, tive a impressão de que havia uma noiva entre eles e um ou dois homens de preto. Será que estavam casando ? Não consegui ver o padre e também, nem procurando em volta, achei a igreja. Coisa esquisita !. Desta vêz não me animei a perguntar ao meu quase clone, ao lado.
Subimos por uma pequena ponte onde crianças jogavam alguma coisa n'água. Criança é tudo igual, pensei ...
Finalmente paramos e o homem que ia à frente veio em nossa direção. Já não me imaginando no céu, pressenti o pior. Mas não, tirou tudo que estava ao meu lado, inclusive eu, e nos colocou no chão. Fiquei, novamente, ao lado do tipo estranho, o de tranças metálicas.
Comecei a ficar assustada novamente quando o homem ligou um negócio que fazia muito barulho. Ficou segurando um tubo que saía dalí e por onde fazia muito vento. Sei porque fiquei em sua frente e quase fui lançada para o alto. Com esforço, só caí no chão mas o homem veio e me pôs de pé, novamente.
Depois, nos deixou um pouco para trás e entrou numa parte do jardim, cercada por tela baixa e coberta por folhas mortas. Do tubo continuava a ventania e com ela o homem parecia espantar as folhas que voavam todas para o alto mas sempre para a frente. Podia agora ver a grama quase morta. Eu de alguma forma me divertia agora com tudo aquilo, aliviada por imaginar que aquele trabalho poderia ter sido meu. Ao meu lado, o de tranças verdes parecia não se importar com nada.
Ví então que o espetáculo das folhas voadoras não era só meu e que algumas pessoas também paravam para assistí-lo. Afinal, eram folhas que pareciam querer voltar aos seus galhos nas alturas mas que, aos poucos, iam se amontoando, ordenadamente, mais à frente.
Foi quando notei que, no grupo que se formou, alguém, um pouco à frente, me olhava de forma diferente. Não era exatamente como os outros que havia visto nesta manhã. Era mais baixo, casaco e gorro azul à cabeça. Me chamou atenção o bigode branco que tinha no rosto, muito branco, como se fosse de algodão ou do Papai Noel que conhecí um dia na infância. Ví que tentou tirar uma foto, não sei se de mim ou das folhas, mas alguma coisa deu errado pois logo desistiu.
Esquecido das folhas, continuou a olhar para mim, como se visse alguém que há muito não encontrava ou que lhe trouxesse recordações.
Já encabulada, ví ainda que ele me deu às costas e seguiu, passeando, pelos jardins do Park.
(Ao amigo Walter, pela idéia da continuação do personagem)
16 dezembro 2004
Vamos à guerra ?
Murilo Galvão
Diz o Secretário, em uma entrevista pública, a respeito das queixas ouvidas de um soldado sobre a falta de veículos blindados para lutar (e não ir pelos ares, claro, na moderna guerrilha iraquiana) :
- "Devemos ir à guerra com o exército que temos ...."
Imagino agora o soldado, muito longe daquí, pensando :
- "Devemos, quem, cara-pálida ?"
Diz o Secretário, em uma entrevista pública, a respeito das queixas ouvidas de um soldado sobre a falta de veículos blindados para lutar (e não ir pelos ares, claro, na moderna guerrilha iraquiana) :
- "Devemos ir à guerra com o exército que temos ...."
Imagino agora o soldado, muito longe daquí, pensando :
- "Devemos, quem, cara-pálida ?"
15 dezembro 2004
Arte ou Criação ?
Murilo Galvão
Era um sobrado, antigo como os demais da rua, quarteirão e bairro. Acredito que lá pelos anos 40 deva ter sido o espaço de uma pequena indústria, no Brooklin. Agora, em área revitalizada, alí funciona - entre tantas outras - uma galeria de arte, simples, ainda mistura de moradia e atelier do artista que busca seu lugar ao sol em galerias mais sofisticadas de Manhattan.
O salão térreo era largo e bastante comprido para talvez chegar à outra rua, nos fundos.
Por entre telas penduradas ia caminhando sem me fixar especialmente em nada. Motivos geométricos, alguns simétricos, outros borrões abstratos. Para mim, mais um artista moderno, contemporâneo, sei lá.
Pelo meio do percurso encontro duas peças enormes e antigas, penso que restos da antiga indústria. Paro para observa-las com carinho, apesar da vergonha instintiva ao sentir-me dando-lhes prioridade e tanta atenção naquele ambiente de arte. Heresia de leigo. Uma lembrava um grande tonel metálico, com tubos que quebravam a harmonia da forma. A outra, peças de uma grande engrenagem, rodas dentadas que um dia tiveram vida. Sem dúvida, pensei, era o que havia de melhor no espaço.
Caminho mais um pouco por entre outras tantas telas semelhantes e deparo-me com o cenário e script do ritual da criação.
Na parede, algumas folhas de papel penduradas em sequência estudada. Na primeira, foto digital impressa em papel barato. Simples objetos como que em pose. Na seguinte, a mesma reprodução, fora de foco, buscando já esconder algo. Em seguida, a última e a mesma cópia já com um quadriculado, a lápis, desenhado sobre si. Inspiração e fonte, em miniatura, para uma nova obra a nascer.
Lembro-me, então, da técnica que, ainda menino, utilizava para reproduzir os desenhos épicos encontrados nas revistas em quadrinhos da época, "Jerônimo, o Herói do Sertão", em especial. Naqueles tempos, ensaiava meus primeiros traços de artista que nunca foram além de cópias em guache sobre madeira, pintadas muitos anos após. Se não se transformaram em obras de arte, pelo menos se fizeram úteis tábuas de queijo em casas de amigos benevolentes.
E, mais uma vez, alí, perguntei-me o que seria aquilo, produto de tal processo criativo ? Seria a "Arte" nos tempos de hoje ?.
Era um sobrado, antigo como os demais da rua, quarteirão e bairro. Acredito que lá pelos anos 40 deva ter sido o espaço de uma pequena indústria, no Brooklin. Agora, em área revitalizada, alí funciona - entre tantas outras - uma galeria de arte, simples, ainda mistura de moradia e atelier do artista que busca seu lugar ao sol em galerias mais sofisticadas de Manhattan.
O salão térreo era largo e bastante comprido para talvez chegar à outra rua, nos fundos.
Por entre telas penduradas ia caminhando sem me fixar especialmente em nada. Motivos geométricos, alguns simétricos, outros borrões abstratos. Para mim, mais um artista moderno, contemporâneo, sei lá.
Pelo meio do percurso encontro duas peças enormes e antigas, penso que restos da antiga indústria. Paro para observa-las com carinho, apesar da vergonha instintiva ao sentir-me dando-lhes prioridade e tanta atenção naquele ambiente de arte. Heresia de leigo. Uma lembrava um grande tonel metálico, com tubos que quebravam a harmonia da forma. A outra, peças de uma grande engrenagem, rodas dentadas que um dia tiveram vida. Sem dúvida, pensei, era o que havia de melhor no espaço.
Caminho mais um pouco por entre outras tantas telas semelhantes e deparo-me com o cenário e script do ritual da criação.
Na parede, algumas folhas de papel penduradas em sequência estudada. Na primeira, foto digital impressa em papel barato. Simples objetos como que em pose. Na seguinte, a mesma reprodução, fora de foco, buscando já esconder algo. Em seguida, a última e a mesma cópia já com um quadriculado, a lápis, desenhado sobre si. Inspiração e fonte, em miniatura, para uma nova obra a nascer.
Lembro-me, então, da técnica que, ainda menino, utilizava para reproduzir os desenhos épicos encontrados nas revistas em quadrinhos da época, "Jerônimo, o Herói do Sertão", em especial. Naqueles tempos, ensaiava meus primeiros traços de artista que nunca foram além de cópias em guache sobre madeira, pintadas muitos anos após. Se não se transformaram em obras de arte, pelo menos se fizeram úteis tábuas de queijo em casas de amigos benevolentes.
E, mais uma vez, alí, perguntei-me o que seria aquilo, produto de tal processo criativo ? Seria a "Arte" nos tempos de hoje ?.
14 dezembro 2004
Luzes, Armas e Alegrias
Murilo Galvão
(i)
Na esquina da larga avenida novaiorquina observo.
Na calçada, multidão em ordem-unida sem comandos.
Nas pistas, policiais em abre-alas para a carreata judaica comemorando o Hannukah.
Músicas estridentes saídas de auto-falantes sofisticados sobre os carros passantes, à la propaganda eleitoral de interior.
Mais buzinas que de costume aumentam a confusão em meus ouvidos.
Parece noite de festa na avenida larga e iluminada, mas falta alegria.
(ii)
Por um instante vem à mente Canoa Quebrada, do longínquo Ceará, novembro de 2000.
(ii)
A saída era parte da rotina vespertina em busca do lanche da noite.
Deixando a pousada, sobre falésia estratégica, onde até o por do sol se podia observar o mar em seu colorido azul-verde-piscina que só os nordestinos sabem criar, seguimos pela rua estreita e curta.
Virando à primeira esquerda, um grande terreiro, praça em outros lugares.
Luzes, muitas luzes, num colorido cafona.
Sem origem definida, uma música de forró quebra o silêncio.
Paro em frente a uma barraca com patinhos coloridos desfilando ao fundo.
Sobre o balcão, espingardas enferrujadas a convidar para o exercício de Lampião.
Um, dois, três, não sei como, foram caindo os patinhos, sem sangue.
Recebo o prêmio ainda atônito com o imprevisível.
Ao meu lado, vejo abaixo, um guri que sorria (com o meu feito ?) para mim.
Dou-lhe o premio, agora brinquedo.
Não parecia uma festa na noite iluminada, mas havia muita alegria naquele terreiro.
13 dezembro 2004
O Retôrno dos Quiabos (Final)
Murilo Galvão
(continuação da Parte II)
Bem, vamos tentar concluir esta série.
Imagine-se com um amigo que, de repente, saca sua digital e começa a disparar cliques e falar bem da máquina. Você se interessa pelo brinquedo e logo resolve substituir aquela velha caixa que tem em casa. Anota a marca, o modelo, faz mais umas duas perguntas e pronto. Está pronto para comprar uma igual.
Mas é assim que deve ser ? Entendo que não e daí vem a estória antiga da compra dos quiabos. Você, na verdade, está mesmo é pronto para fazer uma compra equivocada. Em breve terá em mãos algo que não lhe satisfaz ou alguma coisa de que não precisa.
Vamos, então, seguir o script da compra dos verdinhos na feira. Para melhor comparação, a ligação com os dois textos anteriores vem na identificação de cada um dos itens abaixo.
- “o que desejava (preparar um caruru)”
Você sabe realmente o que deseja, o produto final, pós-compra ? Vai comprar a máquina para que ? Preparar fotos de excelente, boa ou média qualidade em papel ? Ou só mante-las em arquivos de computador ? Vai imprimi-las ou só envia-las aos amigos por e-mail ? Serão tomadas só dos passeios, férias, do churrasco de fim de semana ? Ou vai buscar exercitar seu lado artista, de fotógrafo ? Gosta e sabe “brincar” no computador. Gosta de editar fotos ? Conhece algo do tipo Photoshop ?
Antes de mais nada, esta é a primeira perqunta que precisa ser respondida de forma clara, sem que restem dúvidas a respeito.
- “o que precisava (quiabos, dendê e camarões secos, em quantidades precisas)”
Tendo a resposta acima, você já terá uma idéia de seu perfil de interesse e, ainda que imprecisa e não técnica, do que realmente precisa, o que pode ser diferente do caso de seu amigo. Hora de começar a pesquisar para a definição das quantidades necessárias.
- “onde ir busca-lo (na feira ou na quitanda; no “freguês” que lhe ofereceria o melhor produto)
Hora de começar a procurar. Conversar com amigos que conhecem o assunto, buscar (infinitas vezes) na Internet. Pesquisar opções de preços, locais, etc Associar-se à uma lista de discussão.
- “o quanto se dispunha a pagar (“you get what you pay”, dizem por aqui nos EUA)”
Este item, tão sensível aos nossos bolsos, pode ser um pouco frustrante para os seus sonhos, porém vai ajuda-lo em muito a diminuir o leque das opções.
- “o preço aproximado (não tão aproximado pois inflação já havia) que iria encontrar”
A esta altura já terá uma boa idéia da faixa de preços que irá encontrar, por tipos de máquinas ou fabricantes, ainda que não esteja em situação de julga-los ou escolher o que finalmente irá lhe atender.
- “a qualidade esperada dos produtos (sem fibras, cor e tamanho, no caso dos verdinhos)”
Você nesta etapa já deve ter lido dezenas de termos técnicos totalmente desconhecidos, tais como “pixels, SLR, zoom ótico x digital, EFV x LCD, secure digital, memo sticks, bursts, brackets, pict bridge” e por aí afora.
Novamente é hora de arregaçar as mangas e achar um tempo adicional para navegar pela rede em busca de ensinamentos. Cada um dos termos técnicos encontrados e relativos ao seu quiabo precisa ser bem entendido. Muitos, você logo verá, encarecem o produto e você pode concluir que não precisa daquilo que acaba de descobrir.
Procure páginas (“sites”) onde possa comparar modelos e especificações, outros onde apresentam resultados (independentes) de testes. Recorra às revistas especializadas, nacionais e estrangeiras, mas fique sempre atento para o fato de que não costumam falar mal dos produtos que analisam pois podem perder os preciosos anúncios que mantêm suas páginas.
- “como utilizar o produto adquirido (no preparo do caruru)”
É lógico que isto virá com o tempo, após a compra. Entretanto, nada se perde conhecendo-se um pouco do que fará com seu futuro quiabo. Afinal, se está pretendendo imprimir fotos, como fará isto ?. Pode descobrir que não tem a impressora conveniente, que vai precisar de um editor de fotos, que ainda precisa estudar um pouco, etc, etc
- “e, por fim, não menos importante, que tudo aquilo, do momento do pedido em coro da família diminuta ao instante dos rasgados elogios, tudo lhe dava grande prazer”
Também aqui, é importante que tudo isto seja feito com muito prazer, caso contrário, melhor comprar o clone do amigo e correr os riscos do erro.
Em tempo, para os interessados recomendo os seguintes sites : http://www.steves-digicams.com , http://www.dpreview.com e http://www.ricciardi.com.br , além dos grupos de discussões Megapixel2 e FotoBrasil (encontrados em http://yahoogrupos.com.br )
(continuação da Parte II)
Bem, vamos tentar concluir esta série.
Imagine-se com um amigo que, de repente, saca sua digital e começa a disparar cliques e falar bem da máquina. Você se interessa pelo brinquedo e logo resolve substituir aquela velha caixa que tem em casa. Anota a marca, o modelo, faz mais umas duas perguntas e pronto. Está pronto para comprar uma igual.
Mas é assim que deve ser ? Entendo que não e daí vem a estória antiga da compra dos quiabos. Você, na verdade, está mesmo é pronto para fazer uma compra equivocada. Em breve terá em mãos algo que não lhe satisfaz ou alguma coisa de que não precisa.
Vamos, então, seguir o script da compra dos verdinhos na feira. Para melhor comparação, a ligação com os dois textos anteriores vem na identificação de cada um dos itens abaixo.
- “o que desejava (preparar um caruru)”
Você sabe realmente o que deseja, o produto final, pós-compra ? Vai comprar a máquina para que ? Preparar fotos de excelente, boa ou média qualidade em papel ? Ou só mante-las em arquivos de computador ? Vai imprimi-las ou só envia-las aos amigos por e-mail ? Serão tomadas só dos passeios, férias, do churrasco de fim de semana ? Ou vai buscar exercitar seu lado artista, de fotógrafo ? Gosta e sabe “brincar” no computador. Gosta de editar fotos ? Conhece algo do tipo Photoshop ?
Antes de mais nada, esta é a primeira perqunta que precisa ser respondida de forma clara, sem que restem dúvidas a respeito.
- “o que precisava (quiabos, dendê e camarões secos, em quantidades precisas)”
Tendo a resposta acima, você já terá uma idéia de seu perfil de interesse e, ainda que imprecisa e não técnica, do que realmente precisa, o que pode ser diferente do caso de seu amigo. Hora de começar a pesquisar para a definição das quantidades necessárias.
- “onde ir busca-lo (na feira ou na quitanda; no “freguês” que lhe ofereceria o melhor produto)
Hora de começar a procurar. Conversar com amigos que conhecem o assunto, buscar (infinitas vezes) na Internet. Pesquisar opções de preços, locais, etc Associar-se à uma lista de discussão.
- “o quanto se dispunha a pagar (“you get what you pay”, dizem por aqui nos EUA)”
Este item, tão sensível aos nossos bolsos, pode ser um pouco frustrante para os seus sonhos, porém vai ajuda-lo em muito a diminuir o leque das opções.
- “o preço aproximado (não tão aproximado pois inflação já havia) que iria encontrar”
A esta altura já terá uma boa idéia da faixa de preços que irá encontrar, por tipos de máquinas ou fabricantes, ainda que não esteja em situação de julga-los ou escolher o que finalmente irá lhe atender.
- “a qualidade esperada dos produtos (sem fibras, cor e tamanho, no caso dos verdinhos)”
Você nesta etapa já deve ter lido dezenas de termos técnicos totalmente desconhecidos, tais como “pixels, SLR, zoom ótico x digital, EFV x LCD, secure digital, memo sticks, bursts, brackets, pict bridge” e por aí afora.
Novamente é hora de arregaçar as mangas e achar um tempo adicional para navegar pela rede em busca de ensinamentos. Cada um dos termos técnicos encontrados e relativos ao seu quiabo precisa ser bem entendido. Muitos, você logo verá, encarecem o produto e você pode concluir que não precisa daquilo que acaba de descobrir.
Procure páginas (“sites”) onde possa comparar modelos e especificações, outros onde apresentam resultados (independentes) de testes. Recorra às revistas especializadas, nacionais e estrangeiras, mas fique sempre atento para o fato de que não costumam falar mal dos produtos que analisam pois podem perder os preciosos anúncios que mantêm suas páginas.
- “como utilizar o produto adquirido (no preparo do caruru)”
É lógico que isto virá com o tempo, após a compra. Entretanto, nada se perde conhecendo-se um pouco do que fará com seu futuro quiabo. Afinal, se está pretendendo imprimir fotos, como fará isto ?. Pode descobrir que não tem a impressora conveniente, que vai precisar de um editor de fotos, que ainda precisa estudar um pouco, etc, etc
- “e, por fim, não menos importante, que tudo aquilo, do momento do pedido em coro da família diminuta ao instante dos rasgados elogios, tudo lhe dava grande prazer”
Também aqui, é importante que tudo isto seja feito com muito prazer, caso contrário, melhor comprar o clone do amigo e correr os riscos do erro.
Em tempo, para os interessados recomendo os seguintes sites : http://www.steves-digicams.com , http://www.dpreview.com e http://www.ricciardi.com.br , além dos grupos de discussões Megapixel2 e FotoBrasil (encontrados em http://yahoogrupos.com.br )
12 dezembro 2004
Ainda sobre vassouras
Murilo Galvão
Recebo esta de um velho amigo, Antonio Posse :
"A verdadeira bravura está em chegar em casa bêbado, de madrugada, ser recebido pela mulher com uma vassoura na mão e ainda ter peito prá perguntar:
- Vai varrer ou vai voar? "
Recebo esta de um velho amigo, Antonio Posse :
"A verdadeira bravura está em chegar em casa bêbado, de madrugada, ser recebido pela mulher com uma vassoura na mão e ainda ter peito prá perguntar:
- Vai varrer ou vai voar? "
Pego na mentira
Murilo Galvão
Hoje, domingo, deveria ser folga do redator. Acontece que acordei perguntando-me, afinal, para que escrevo, publico, edito ou "uploudo" um blog como este ?
Por que escrevo ? Para quem ? Estarão estas bobagens sendo lidas ? O que acharão delas meus "leitores", estes anônimos que nunca postaram um simples "comment" ? Não deve valer a pena ou porque nunca chegam ao final da leitura ?
Se não busco elogios, o que espero ? Estranho esta sensação, como a de um psicótico que não se convence de estar vigiado.
Será que o blog existe ? Disto, pelo menos, tenho certeza.
É que o telefone já tocou e ouvi : "Oi, só para lhe dizer que caruru não leva acento ...."; ou, de alguém que chega em casa e comenta : "Aí, Murilo .... dando uma de prosador, hein ? "; ou ainda, da rotina diária : "... de novo, já vai para o blog ?", reclama a mulher paciente com os longos momentos de reclusão a que me imponho frente a esta telinha diabólica e escravocrata.
Inquieto e curioso, instalo um "contador" ao pé da página, na esperança de vigiar o espaço, identificar os intrusos. Surpresa, são 10, 12 visitas ao dia. Pior, algumas visitas vindo do outro lado do mundo. A dúvida cresce : o que buscam aqui ? Algum nissei arrependido e com saudade do idioma ? Provavelmente erraram de endereço.
E aí me pego na mentira. Afinal não fui eu mesmo quem escreveu na abertura da página que são (ou deveriam ser) palavras escritas em busca do nada ?
Hoje, domingo, deveria ser folga do redator. Acontece que acordei perguntando-me, afinal, para que escrevo, publico, edito ou "uploudo" um blog como este ?
Por que escrevo ? Para quem ? Estarão estas bobagens sendo lidas ? O que acharão delas meus "leitores", estes anônimos que nunca postaram um simples "comment" ? Não deve valer a pena ou porque nunca chegam ao final da leitura ?
Se não busco elogios, o que espero ? Estranho esta sensação, como a de um psicótico que não se convence de estar vigiado.
Será que o blog existe ? Disto, pelo menos, tenho certeza.
É que o telefone já tocou e ouvi : "Oi, só para lhe dizer que caruru não leva acento ...."; ou, de alguém que chega em casa e comenta : "Aí, Murilo .... dando uma de prosador, hein ? "; ou ainda, da rotina diária : "... de novo, já vai para o blog ?", reclama a mulher paciente com os longos momentos de reclusão a que me imponho frente a esta telinha diabólica e escravocrata.
Inquieto e curioso, instalo um "contador" ao pé da página, na esperança de vigiar o espaço, identificar os intrusos. Surpresa, são 10, 12 visitas ao dia. Pior, algumas visitas vindo do outro lado do mundo. A dúvida cresce : o que buscam aqui ? Algum nissei arrependido e com saudade do idioma ? Provavelmente erraram de endereço.
E aí me pego na mentira. Afinal não fui eu mesmo quem escreveu na abertura da página que são (ou deveriam ser) palavras escritas em busca do nada ?
11 dezembro 2004
Novos jeitinhos
Murilo Galvão
No Brasil, tempos duros, próprios para um jeitinho.
Mercado interno com enorme potencial, sem consumidores, pobres sem poder de compra. Desemprego. Bancos cada vez mais ricos, nas nuvens em céu de brigadeiro. Créditos desumanos. E para que ?
Mercado externo disputado e contido. Barreiras e proteções.
Como produzir, vender e crescer ?
Nestes tempos, o nosso jeitinho brasileiro tornou-se mais ousado. Vejam o que andam fazendo aqui pelo Norte nossas empresas com poder de fogo para disputar a batalha global :
- Votorantim :
a) adquirindo nos EUA duas plantas industrias, por USD 400 milhões;
b) planejando dobrar suas operações no exterior, até 2007;
c) operando uma planta, no Canadá, comprada por USD 680 milhões, em 2001;
d) operando, em parceria (50%) local, uma planta na Flórida, EUA;
e) administrando, no total, 25 indústrias e mais de 8.000 empregados.
- Grupo Gerdau (RS) :
a) operando uma planta em Ontário, Canadá;
b) operando uma planta na Flórida, EUA;
c) recentemente adquiridas, operando sete unidades industrias espalhadas por sete estados norte-americanos, por USD 266 milhões;
d) adquirindo duas empresas (sete unidades) operando em quatro estados, nos EUA;
e) operando na América do Norte um total de 14 unidades;
f) quarto maior produtor de aço na América do Norte.
- Companhia Siderúrgica Nacional :
a) operando uma planta, desde 2001.
- Companhia Vale do Rio Doce :
a) liderando, em parceria (50%), a produção de aços planos na costa oeste dos EUA;
- Cutrale :
a) operando uma planta na Flórida, EUA, desde 1996.
- Citrosuco :
a) operando uma planta na Flórida, EUA, desde 1997.
- Embraer :
a) construindo uma fábrica nos EUA;
b) sócia de consórcio fornecedor para o Pentágono, desde agosto.
Como dizia um antigo gurú, quando o governo não atrapalha ....
(Fonte : NYT, 10/12/2004)
No Brasil, tempos duros, próprios para um jeitinho.
Mercado interno com enorme potencial, sem consumidores, pobres sem poder de compra. Desemprego. Bancos cada vez mais ricos, nas nuvens em céu de brigadeiro. Créditos desumanos. E para que ?
Mercado externo disputado e contido. Barreiras e proteções.
Como produzir, vender e crescer ?
Nestes tempos, o nosso jeitinho brasileiro tornou-se mais ousado. Vejam o que andam fazendo aqui pelo Norte nossas empresas com poder de fogo para disputar a batalha global :
- Votorantim :
a) adquirindo nos EUA duas plantas industrias, por USD 400 milhões;
b) planejando dobrar suas operações no exterior, até 2007;
c) operando uma planta, no Canadá, comprada por USD 680 milhões, em 2001;
d) operando, em parceria (50%) local, uma planta na Flórida, EUA;
e) administrando, no total, 25 indústrias e mais de 8.000 empregados.
- Grupo Gerdau (RS) :
a) operando uma planta em Ontário, Canadá;
b) operando uma planta na Flórida, EUA;
c) recentemente adquiridas, operando sete unidades industrias espalhadas por sete estados norte-americanos, por USD 266 milhões;
d) adquirindo duas empresas (sete unidades) operando em quatro estados, nos EUA;
e) operando na América do Norte um total de 14 unidades;
f) quarto maior produtor de aço na América do Norte.
- Companhia Siderúrgica Nacional :
a) operando uma planta, desde 2001.
- Companhia Vale do Rio Doce :
a) liderando, em parceria (50%), a produção de aços planos na costa oeste dos EUA;
- Cutrale :
a) operando uma planta na Flórida, EUA, desde 1996.
- Citrosuco :
a) operando uma planta na Flórida, EUA, desde 1997.
- Embraer :
a) construindo uma fábrica nos EUA;
b) sócia de consórcio fornecedor para o Pentágono, desde agosto.
Como dizia um antigo gurú, quando o governo não atrapalha ....
(Fonte : NYT, 10/12/2004)
10 dezembro 2004
Piaçava da Silva
Murilo Galvão
- Me chamo Piaçava da Silva. Lembro pouco de quando era criança. Morava lá pras bandas de Cajaíba, pertinho de Valença, acho que na Bahia dos meus santos.
Só me lembro bem mesmo era da brisa fria que vinha soprando lá dos lados da Gamboa.
Tudo ia bem e eu quase já em flor quando aquele homem surgiu e com um zás de assustar, passou o facão bem rente ao meu pescoço, por sorte um pouco acima de minha cabeça.
Refeita do susto, já no chão, machucada porém viva graças aos meus poucos anos de menina. E aí tudo começou.
O pau-de-arara, acho mesmo é que era uma caçamba, se foi e com ele, eu e muitas outras que vivíamos aquela doce vida cajaibana. Tudo era escuro e apertado, alí em baixo, espremida por tranças e cachos que ainda gemiam, como eu.
Onde fui parar, não sei. A viagem foi longa, triste, com alguma poeira no início e muita fumaça depois.
Deixaram-me muito tempo ao relento, muito sol e, às vezes, muita chuva, pesada, que em nada lembrava às que havia deixado para trás.
Depois me levaram, lavaram e cortaram. Ainda não sei porque, me vestiram , de cabeça para baixo, com uma saia vermelha, fria, metálica. Pior, me amarraram a um espeto que, esperava, me deixaria ver tudo, novamente, do alto.
Mas não aconteceu assim. Até hoje vejo tudo de baixo, com saudade cada vez maior dos velhos tempos de menina.
Voltei ao castigo da espera em quarto escuro.
Nova viagem e lá fomos nós, outra vez, não sei para onde. Então, até que achei graça. Um monte de piaçavas, como eu, todas espetadas.
Mais uns dias de castigo, desta vez numa solitária, sem entender o porque. Tudo era ainda escuro e abafado. Só alguns baldes e trapos a me olhar.
Novamente veio um homem que me levou. Naquele dia, lembro-me muito bem do calor para onde fui levada e onde se ouvia uma gritaria ensurdecedora que eu não comprendia a razão. Fiquei encostada em alguma parede, com o homem ao meu lado, por muito tempo, mais de uma hora.
Lembro-me de haver escutado um apito mais longo e do silêncio que logo se seguiu.
Pela primeira vez, apesar das prisões e de nada entender, me senti castigada.
Aquele homem que, a princípio me parecia um salvador, tirando-me da escuridão solitária, não cansava de me esfregar, o que me doía muito e arrancava-me alguns pedaços.
Por pura maldade deve ter me ralado sobre o chão que estava muito sujo. Rolei sobre líquidos mal-cheirosos, papéis, garrafas e cacos de vidro, me perdi no meio de tanta sujeira. Acho que me esfregaram até sobre um líquido meio frio e meio vermelho. Penso que era sangue.
Já muito suja e cansada voltei à solitária. Desta vez me pareceu ainda mais escura, abafada, quente e cheirando a mofo. Acho que muitos dias se passaram e nem aquele homem mais apareceu.
O chão onde me apoiava era frio, a única coisa que me confortava, pois fazia me lembrar das brisas frias de Cajaíba.
(Para os cajaibanos do meu tempo de infância em férias. ny, 10/dez/04)
- Me chamo Piaçava da Silva. Lembro pouco de quando era criança. Morava lá pras bandas de Cajaíba, pertinho de Valença, acho que na Bahia dos meus santos.
Só me lembro bem mesmo era da brisa fria que vinha soprando lá dos lados da Gamboa.
Tudo ia bem e eu quase já em flor quando aquele homem surgiu e com um zás de assustar, passou o facão bem rente ao meu pescoço, por sorte um pouco acima de minha cabeça.
Refeita do susto, já no chão, machucada porém viva graças aos meus poucos anos de menina. E aí tudo começou.
O pau-de-arara, acho mesmo é que era uma caçamba, se foi e com ele, eu e muitas outras que vivíamos aquela doce vida cajaibana. Tudo era escuro e apertado, alí em baixo, espremida por tranças e cachos que ainda gemiam, como eu.
Onde fui parar, não sei. A viagem foi longa, triste, com alguma poeira no início e muita fumaça depois.
Deixaram-me muito tempo ao relento, muito sol e, às vezes, muita chuva, pesada, que em nada lembrava às que havia deixado para trás.
Depois me levaram, lavaram e cortaram. Ainda não sei porque, me vestiram , de cabeça para baixo, com uma saia vermelha, fria, metálica. Pior, me amarraram a um espeto que, esperava, me deixaria ver tudo, novamente, do alto.
Mas não aconteceu assim. Até hoje vejo tudo de baixo, com saudade cada vez maior dos velhos tempos de menina.
Voltei ao castigo da espera em quarto escuro.
Nova viagem e lá fomos nós, outra vez, não sei para onde. Então, até que achei graça. Um monte de piaçavas, como eu, todas espetadas.
Mais uns dias de castigo, desta vez numa solitária, sem entender o porque. Tudo era ainda escuro e abafado. Só alguns baldes e trapos a me olhar.
Novamente veio um homem que me levou. Naquele dia, lembro-me muito bem do calor para onde fui levada e onde se ouvia uma gritaria ensurdecedora que eu não comprendia a razão. Fiquei encostada em alguma parede, com o homem ao meu lado, por muito tempo, mais de uma hora.
Lembro-me de haver escutado um apito mais longo e do silêncio que logo se seguiu.
Pela primeira vez, apesar das prisões e de nada entender, me senti castigada.
Aquele homem que, a princípio me parecia um salvador, tirando-me da escuridão solitária, não cansava de me esfregar, o que me doía muito e arrancava-me alguns pedaços.
Por pura maldade deve ter me ralado sobre o chão que estava muito sujo. Rolei sobre líquidos mal-cheirosos, papéis, garrafas e cacos de vidro, me perdi no meio de tanta sujeira. Acho que me esfregaram até sobre um líquido meio frio e meio vermelho. Penso que era sangue.
Já muito suja e cansada voltei à solitária. Desta vez me pareceu ainda mais escura, abafada, quente e cheirando a mofo. Acho que muitos dias se passaram e nem aquele homem mais apareceu.
O chão onde me apoiava era frio, a única coisa que me confortava, pois fazia me lembrar das brisas frias de Cajaíba.
(Para os cajaibanos do meu tempo de infância em férias. ny, 10/dez/04)
09 dezembro 2004
Primeiro Caderno
Murilo Galvão
Como deve ser o primeiro e principal caderno de um grande jornal ? Ou, de outra forma, o que suas páginas devem conter ?
Deve servir para formar opiniões, informar ou simplesmente para faze-lo sobreviver ?
De que vive um grande jornal : das notícias (como no passado onde não voavam pelas asas da Internet e dos satélites), do governo (como em alguns recantos conhecidos), ou de marketing selvagem ? Deve ser em algo parecido com as revistas especializadas que, número após número, publicam resultados de testes de produtos nunca condenanando seus fabricantes (os mesmos que abastecem suas páginas (e caixas) com lindos anúncios), e que acabam nos levando à compras equivocadas pela má informação ?
Em busca de alguma resposta, tomemos um exemplo local : o primeiro caderno do New-York Times de hoje, 9 de dezembro, circula com 42 páginas, assim ocupadas :
- com notícias : 12 páginas (29% do espaço) , assim distribuídas :
- notícias gerais (primeira página, resumos, etc) : 1,5 páginas
- notícias nacionais : 4 páginas
- notícias internacionais : 3,5 páginas (8% apenas)
- previsão do tempo : 1 página
- editoriais : 2 páginas
- com anúncios : 30 páginas (71% do espaço), na seguinte distribuição :
- pequenos anúncios'(até 1/4 de página) : 4 páginas
- anúncios de até 1/2 página : 7 páginas
- anúncios de página inteira : 19 páginas (45% de espaço)
Seria leviano concluir que a propalada desinformação dos americanos passa pelo desinteresse de seus jornais em mostrar-lhes o que vai pelo mundo ? Ou seria o contrário, pela falta de interesse da leitura, os jornais são o que são ?
Afinal, nesta indústria, o que vende mais : Lula alegre e com cores peruanas em um distante e exótico país ou a liquidação colorida e alegre, aqui bem pertinho, da Macy's ?
* - para o bem da análise, ressalte-se que o jornal publica ainda vários outros cadernos, dedicados ao mundo de negócios, artes, tecnologia, caderno local, diversões, esporte, etc
Como deve ser o primeiro e principal caderno de um grande jornal ? Ou, de outra forma, o que suas páginas devem conter ?
Deve servir para formar opiniões, informar ou simplesmente para faze-lo sobreviver ?
De que vive um grande jornal : das notícias (como no passado onde não voavam pelas asas da Internet e dos satélites), do governo (como em alguns recantos conhecidos), ou de marketing selvagem ? Deve ser em algo parecido com as revistas especializadas que, número após número, publicam resultados de testes de produtos nunca condenanando seus fabricantes (os mesmos que abastecem suas páginas (e caixas) com lindos anúncios), e que acabam nos levando à compras equivocadas pela má informação ?
Em busca de alguma resposta, tomemos um exemplo local : o primeiro caderno do New-York Times de hoje, 9 de dezembro, circula com 42 páginas, assim ocupadas :
- com notícias : 12 páginas (29% do espaço) , assim distribuídas :
- notícias gerais (primeira página, resumos, etc) : 1,5 páginas
- notícias nacionais : 4 páginas
- notícias internacionais : 3,5 páginas (8% apenas)
- previsão do tempo : 1 página
- editoriais : 2 páginas
- com anúncios : 30 páginas (71% do espaço), na seguinte distribuição :
- pequenos anúncios'(até 1/4 de página) : 4 páginas
- anúncios de até 1/2 página : 7 páginas
- anúncios de página inteira : 19 páginas (45% de espaço)
Seria leviano concluir que a propalada desinformação dos americanos passa pelo desinteresse de seus jornais em mostrar-lhes o que vai pelo mundo ? Ou seria o contrário, pela falta de interesse da leitura, os jornais são o que são ?
Afinal, nesta indústria, o que vende mais : Lula alegre e com cores peruanas em um distante e exótico país ou a liquidação colorida e alegre, aqui bem pertinho, da Macy's ?
* - para o bem da análise, ressalte-se que o jornal publica ainda vários outros cadernos, dedicados ao mundo de negócios, artes, tecnologia, caderno local, diversões, esporte, etc
08 dezembro 2004
Anunciação
Luzes e clarins saúdam o Natal mundano já presente.
Filas e mais filas. Para comprar, para escolher, para sair; para filmar e também para olhar vitrines de dar inveja a Joãozinho Trinta; para entrar e também para sair, .... do Iraque. Filas para tudo. Mundo moderno. Salve o Natal.
(Rockfeller Center, 07/dez/04, mgalvao)
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